O capital das finanças sustentáveis começa a avançar sobre os setores mais intensivos em carbono da economia, como cimento e mineração, marcando uma mudança de fase no mercado de dívida rotulada (dívida verde, como os green bonds). Ao migrar dos projetos mais simples para operações mais complexas, o movimento reduz o volume de emissões no curto prazo, mas amplia o potencial de impacto econômico e posiciona a agenda climática no centro da economia real.
Esse movimento ocorre em um momento de ajuste no mercado. Globalmente, as emissões de dívida rotulada mostraram resiliência, com queda inferior a 10% mesmo em um ambiente macroeconômico mais restritivo. Já na América Latina e no Brasil, a retração foi mais acentuada, próxima de 30%, refletindo incertezas macroeconômicas, volatilidade cambial e limitações na capacidade de estruturar operações mais complexas.
O contraste reforça que a desaceleração regional não decorre de falta de demanda, mas de entraves técnicos e de um mercado em transição para uma nova fase mais exigente. “Existem alguns gaps estruturais no nosso mercado, seja de capacidade, seja da questão de volatilidade de câmbio”, afirma Paula Carvalho, diretora de análise da Sustainable Fitch — a casa de análises, braço de sustentabilidade da Fitch, realizou um encontro com a imprensa nesta terça-feira, 31.
Ao avançar sobre setores intensivos em carbono, o mercado de dívida sustentável passa a operar diretamente no núcleo da economia, onde estão os maiores volumes de capital e as cadeias produtivas mais relevantes para o PIB.
Diferentemente da primeira onda, concentrada em ativos já elegíveis como renováveis, essa nova fase direciona recursos para indústrias de base, com maior capacidade de gerar transformação sistêmica, ganhos de produtividade e reconfiguração de competitividade. Na prática, a agenda climática deixa de ser um vetor paralelo e passa a influenciar decisões estratégicas de investimento nos setores que mais pesam na estrutura econômica.
Esse avanço vem acompanhado de um aumento relevante na complexidade das operações. Estruturar dívida sustentável para setores intensivos em carbono exige planos de transição no nível da companhia, métricas mais robustas e maior capacidade técnica, o que alonga prazos e eleva custos. Em um ambiente de incerteza macroeconômica e volatilidade cambial, esse nível de exigência reduz o número de emissões, já que muitos emissores optam por instrumentos convencionais, mais simples e rápidos de executar.
O destravamento do próximo ciclo depende, segundo a Sustainable Fitch, da construção de uma infraestrutura que reduza essas fricções. A implementação da Taxonomia Sustentável Brasileira tende a padronizar critérios, dar mais previsibilidade aos emissores e aumentar a confiança dos investidores.
Ao mesmo tempo, mecanismos como o EcoInvest e estruturas de blended finance ampliam o acesso a capital e tornam mais claros os benefícios financeiros das operações sustentáveis. Com regras mais definidas e incentivos mais tangíveis, a tendência é que o mercado volte a ganhar escala, já ancorado em uma base mais sólida e alinhada à economia real.
A lógica da transição
Ao trazer para dentro do mercado segmentos como cimento e mineração, a lógica deixa de ser apenas financiar o que já é sustentável e passa a viabilizar a transformação da economia como um todo.
Toda essa mudança exige dos emissores que a captação esteja vinculada a um plano de transição consistente, com metas e indicadores que demonstrem a trajetória da empresa rumo à descarbonização. “Esse bond tem que estar atrelado com a estratégia de longo prazo da companhia para fazer essa transição”, afirma Paula Carvalho.
Nesse contexto, a desaceleração recente perde relevância como sinal de enfraquecimento e passa a ser interpretada como parte de um ajuste necessário para um mercado mais complexo e estratégico.
À medida que o capital avança sobre setores intensivos em carbono, as finanças sustentáveis deixam de ser uma agenda de nicho e passam a operar no centro das decisões econômicas. O volume pode oscilar no curto prazo, mas a direção do fluxo é clara: menos crescimento fácil, mais impacto real.


