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Quando a IA deixa de responder perguntas e passa a executar o trabalho

Quando a IA deixa de responder perguntas e passa a executar o trabalho

Nos últimos anos, a inteligência artificial generativa transformou a forma como empresas criam conteúdo, automatizam tarefas e apoiam decisões. Ferramentas capazes de responder perguntas, redigir textos e sintetizar informações tornaram-se parte do cotidiano corporativo. Mas essa foi apenas a primeira onda. Agora, a tecnologia dá um salto qualitativo: de sistemas que respondem a sistemas que agem.

A nova geração de IA é capaz de executar processos inteiros de forma autônoma, da análise de dados à tomada de decisões operacionais, redefinindo funções e modelos operacionais nas organizações. Esses sistemas, conhecidos como agentes de IA, são projetados para receber um objetivo e conduzir as etapas necessárias para alcançá-lo. Em vez de apenas produzir uma resposta a partir de um comando humano, eles analisam dados, tomam decisões intermediárias, interagem com outros agentes e adaptam sua atuação conforme novas informações surgem ao longo do processo.

Na prática, isso significa que atividades que antes exigiam intervenção humana contínua passam a ser conduzidas por sistemas capazes de operar com certo grau de autonomia. Em muitas organizações, esses agentes já estão assumindo tarefas que envolvem análise de documentos, atendimento ao cliente, triagem de demandas e monitoramento de operações.

Estamos falando do presente, não do futuro. O estudo State of AI in the Enterprise – The Untapped Edge, da Deloitte, aponta que 23% das companhias entrevistadas já utilizam algum tipo de IA agêntica em suas operações. A expectativa é que esse número alcance cerca de 74% nos próximos dois anos.

O movimento ocorre porque esses sistemas ampliam significativamente o papel da IA dentro das organizações. Em vez de atuar apenas como ferramenta de apoio à produtividade individual, os agentes passam a funcionar como operadores de processos inteiros, reduzindo tempos de execução, aumentando a capacidade de resposta das equipes e transformando modelos de negócios.

No Brasil, um exemplo concreto vem da Rede Mater Dei. A empresa adotou agentes de IA em atividades relacionadas à análise de contratos e autorização de procedimentos médicos, áreas sensíveis para a gestão financeira de hospitais. Segundo dados divulgados pela própria organização, a iniciativa contribuiu para acelerar processos internos e gerar retorno superior a 500% sobre o investimento.

Casos como esse ilustram como a tecnologia começa a assumir funções diretamente ligadas à operação dos negócios: em vez de apenas apoiar decisões humanas, os agentes executam etapas inteiras de trabalho, ampliando a capacidade operacional das equipes.

A próxima onda: agentes de fronteira

Se os agentes de IA representam uma mudança significativa, os chamados agentes de fronteira são a próxima onda, e o salto é ainda maior.

Os agentes atuais ainda enfrentam limitações importantes: dificuldade em manter memória consistente ao longo do tempo, necessidade de supervisão humana em tarefas mais longas e autonomia restrita em contextos ambíguos ou complexos. Os agentes de fronteira são projetados exatamente para superar essas restrições.

Imagine um sistema capaz de receber uma instrução ampla, como “identifique gargalos na nossa cadeia de suprimentos e proponha soluções”, e, de forma autônoma, acessar dados de múltiplos sistemas, coordenar subtarefas com agentes especializados, monitorar resultados em tempo real e ajustar o plano conforme necessário. Isso é o que os agentes de fronteira prometem: não apenas executar uma tarefa específica, mas organizar etapas sucessivas de um processo mais amplo, operando por períodos prolongados com mínima intervenção humana.

Em ambientes corporativos complexos, como infraestrutura tecnológica, operações financeiras ou cadeias logísticas, essa capacidade pode reduzir significativamente o tempo necessário para identificar e resolver problemas, além de liberar equipes humanas para decisões de maior valor estratégico.

Essa autonomia expandida, no entanto, exige governança igualmente sofisticada. Controles claros, supervisão humana adequada e padrões de transparência sobre como as decisões automatizadas são tomadas não são apenas boas práticas, são pré-requisitos para a adoção responsável e sustentável dessa tecnologia.

A mudança mais profunda não é tecnológica

É preciso olhar além da tecnologia. A principal transformação trazida pelos agentes de IA e, em especial, pelos agentes de fronteira, não será tecnológica, mas organizacional. Mais do que automatizar tarefas, esses sistemas começam a redefinir como o trabalho é estruturado e como humanos e máquinas colaboram dentro do ambiente corporativo.

Para os líderes de negócios e tecnologia, a pergunta relevante não é mais “se” irão adotar agentes de IA, mas “como” fazê-lo de forma estratégica, segura e alinhada aos objetivos do negócio. Quem começar essa jornada agora estará melhor posicionado para capturar as vantagens competitivas que essa próxima onda promete trazer.

*Cleber Morais é diretor-geral da AWS Brasil




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