A ofensiva militar protagonizada por Estados Unidos e Israel contra o Irã desencadeou a maior crise energética desde 1973. As consequências vão muito além do aumento no preço dos combustíveis, com efeitos estruturais. A geografia do poder energético será redefinida, e a América Latina pode migrar para o centro do tabuleiro.
Mesmo com o cessar-fogo acordado nesta terça-feira, 7, e a reabertura do Estreito de Ormuz, a interrupção prolongada do fluxo de navios petroleiros pelo canal gerou impactos significativos, que devem originar um novo regime energético global. E a segurança dos suprimentos passa a ser o ponto central da alocação de capital.
“O conflito no Oriente Médio desencadeou uma das maiores escassezes de oferta da história dos mercados globais de energia”, afirmaram, em declaração conjunta, a Agência Internacional de Energia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.
A ruptura no Estreito de Ormuz expôs uma fragilidade estrutural do sistema energético global: a dependência de rotas críticas concentradas em regiões de alto risco geopolítico. Por onde passa cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás, o canal deixou de ser apenas um gargalo logístico para se tornar um risco permanente incorporado ao preço da energia.
No caso do GNL, a rigidez da cadeia de produção e os longos ciclos de investimento impedem uma resposta rápida à perda de oferta, consolidando um cenário de escassez estrutural que pode durar anos. Nesse novo contexto, investidores passam a priorizar não apenas custo, mas previsibilidade de acesso, deslocando capital para regiões capazes de garantir fluxo contínuo fora de zonas de conflito.
É esse movimento que reposiciona a América Latina no mapa energético global. A região já era apontada como a principal fonte de crescimento da oferta de petróleo fora da OPEP, com expansão liderada por Brasil, Guiana e Argentina, e agora ganha um prêmio geopolítico adicional por sua distância dos principais pontos de estrangulamento.
“A América Latina já estava posicionada para ser a principal fonte de crescimento da oferta de petróleo fora da OPEP em 2026”, afirmaram, em relatório, os pesquisadores Luisa Palacios e Diego Rivera, da Universidade de Columbia.
No gás, projetos na Argentina e no México ganham tração com a reconfiguração do mercado, enquanto o Brasil combina produção crescente de petróleo com uma matriz elétrica mais resiliente. A nova lógica é clara: em um mundo de choques recorrentes, a centralidade energética deixa de estar apenas nas reservas e passa a depender da capacidade de produzir e escoar energia com estabilidade.
A volta das renováveis
A crise acelera uma mudança de lógica na transição energética. As renováveis deixam de ser apenas uma agenda climática e passam a ocupar um papel estratégico na redução de risco macroeconômico. Em um ambiente de volatilidade estrutural nos preços de petróleo e gás, fontes como solar, eólica e biocombustíveis oferecem previsibilidade de custo e menor exposição a choques externos.
“A alta dos combustíveis pode acelerar a transição para energias limpas como estratégia de segurança energética”, afirmam Palacios e Rivera. Países com maior participação de energia doméstica renovável tendem a amortecer impactos inflacionários e reduzir a necessidade de respostas monetárias mais duras, o que reposiciona essas fontes como instrumentos de estabilidade econômica, e não apenas de descarbonização.
No caso da América Latina, essa dinâmica se traduz em uma aceleração pragmática da transição. A alta dos combustíveis fósseis aumenta o custo político e fiscal da dependência de importações, incentivando governos a ampliar investimentos em geração renovável, armazenamento e eletrificação.
A combinação de matriz elétrica limpa e uso de biocombustíveis no transporte, no Brasil, cria uma vantagem comparativa relevante, mas também reforça a necessidade de avançar em tecnologias complementares, como baterias e integração do sistema. A transição, nesse contexto, deixa de ser uma escolha de longo prazo e passa a ser uma resposta imediata à necessidade de segurança energética.
No limite, a operação militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã produz um efeito colateral econômico relevante: ao elevar estruturalmente o prêmio de risco das rotas energéticas tradicionais, desloca capital e demanda para geografias mais estáveis. Nesse novo mapa, o Brasil ganha competitividade relativa ao combinar expansão da produção de petróleo, matriz elétrica majoritariamente renovável e menor exposição a zonas de conflito.
O país passa a oferecer ao investidor internacional algo cada vez mais escasso no setor de energia: previsibilidade de oferta. A oportunidade é clara, mas condicional. Transformar esse ganho geopolítico em crescimento econômico dependerá da capacidade de destravar infraestrutura de gás, reduzir vulnerabilidades no elo dos fertilizantes e consolidar a transição energética como vetor de produtividade, e não apenas de agenda ambiental.


