Quando Donald Trump assinou o chamado “Dia da Libertação”, em abril de 2025, impondo tarifas a mais de 180 países, poucos setores sentiram o choque tão rapidamente quanto o mercado de bebidas. Vinícolas europeias viram seus compradores americanos hesitarem. Importadores brasileiros recalcularam planilhas. E enólogos chilenos, que dominam quase 40% do mercado brasileiro, passaram a monitorar o câmbio com a mesma atenção que a fermentação dos vinhos.
O resultado global? O volume de vinhos encolheu 4% em 2025 nos principais mercados mundiais. E o Brasil? Cresceu.
O mundo bebe menos — e gasta menos quando bebe
Os dados são da IWSR, consultoria especializada no setor global de bebidas: em 22 mercados que representam 75% do consumo mundial, o volume total de bebidas alcoólicas recuou 2% e o valor caiu 4% em 2025. Nos Estados Unidos, maior mercado de vinhos premium do planeta, o volume despencou 5%. Na China, o valor do setor encolheu 12%.
A explicação está na combinação de três crises simultâneas.
A Guerra na Ucrânia, que já dura mais de quatro anos, gerou o maior choque de commodities desde os anos 1970, segundo o Banco Mundial, encarecendo energia, logística, vidro e embalagens, ingredientes invisíveis de toda garrafa. As sanções ocidentais à Rússia eliminaram um dos maiores importadores de Bordeaux e Champagne do mundo. E o tarifaço americano de 2025 colocou o vinho europeu 20% mais caro no principal mercado de exportação do setor, enquanto adegas espanholas, francesas e italianas já nadavam em estoques acumulados.
O resultado foi o fim temporário da premiumização. O consumidor que bebia menos, mas pagava mais por garrafa, voltou a olhar o preço na prateleira. Luke Tegner, da IWSR, resumiu em termos que qualquer gestor de varejo entende: a tendência de premiumização “foi eclipsada pelo aumento dos preços e o foco do consumidor na otimização da relação qualidade-preço”.
O Brasil nada contra a corrente
Enquanto o mundo retraía, o Brasil batia recordes. Os números são inequívocos.
As importações de vinhos cresceram 20% em valor entre 2023 e 2025, saindo de US$ 468 milhões para US$ 561 milhões, segundo o Ministério da Agricultura. Em 2024, o país registrou recorde histórico de volume importado, com 17,7 milhões de caixas de 9 litros. O mercado total de vinhos e espumantes, incluindo nacionais, atingiu R$ 19,35 bilhões em 2024. No início de 2025, as vendas de vinhos brancos cresceram 28% no primeiro trimestre em relação ao quarto trimestre de 2024. E a produção nacional deu um salto de 38% em 2025, chegando a 2,9 milhões de hectolitros, um dos melhores momentos da série histórica, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho.
O que explica esse paradoxo?
O mercado ainda é pequeno e está em fase de penetração. O Brasil consome apenas 2 litros de vinho por pessoa ao ano, segundo a OIV, contra 21,6 da Argentina e médias europeias acima de 40 litros. Há décadas de crescimento pela frente antes de qualquer saturação.
Uma transformação demográfica silenciosa está acontecendo. As mulheres agora representam 53% dos consumidores de vinho no Brasil, seis pontos percentuais a mais do que em 2019. A faixa etária de 55 a 64 anos também ganhou relevância. Ambos os grupos têm renda disponível e valorizam experiência e sofisticação.
Os hábitos estão se diversificando. Vinhos brancos subiram de 20% para 26% do consumo entre 2017 e 2024, e rosés de 4% para 8%. A bebida saiu de um perfil restrito, com tintos encorpados em ocasiões formais, para um consumo mais casual, cotidiano e diversificado.
A crise global criou uma janela de preço. Com excesso de estoque europeu e chileno e mercados tradicionais fechados, o Brasil tornou-se destino prioritário. Portugal é o exemplo mais eloquente: o país superou o Reino Unido e tornou-se o terceiro maior destino das exportações portuguesas de vinho. O plano estratégico da ViniPortugal até 2030 coloca Brasil, Estados Unidos e Canadá como responsáveis por 50% de todo o seu investimento em marketing.
O Chile manda no Brasil — e está pressionado
O Chile domina com 38% do valor total importado, equivalente a US$ 213 milhões em 2025. A Argentina vem em segundo com US$ 101 milhões. Entre os europeus, Portugal lidera com US$ 84 milhões, seguido por França, com US$ 64 milhões, e Itália, com US$ 49 milhões.
A dependência em relação ao Chile cria um vetor de risco específico. Qualquer variação cambial ou ruptura bilateral tem impacto imediato nas prateleiras brasileiras. Por outro lado, com adegas europeias precisando escoar estoques, o importador brasileiro está em posição incomum de força para negociar. Rótulos que seriam difíceis de obter há cinco anos chegam hoje com propostas comerciais mais agressivas.
O que o empresário brasileiro precisa saber agora
O câmbio é o maior risco operacional. O real oscilou entre R$ 4,70 e R$ 6,30 frente ao dólar nos últimos 24 meses. Para um setor em que a maior parte do volume é importada e cotada em dólar ou euro, essa volatilidade comprime margens ou obriga o repasse de preços ao consumidor. A derrubada do tarifaço de Trump pela Suprema Corte americana, em fevereiro de 2026, aliviou o real, que voltou abaixo de R$ 5,20, mas o ambiente permanece incerto.
Há espaço tanto no premium quanto no volume. O crescimento foi impulsionado em parte por sofisticação, com rótulos de Itália, França, Grécia e África do Sul performando acima da média. Mas o volume geral também cresceu. São duas estratégias, com margens e públicos distintos, ambas com potencial real.
A produção nacional ganha relevância estratégica. Com a safra de 2025 crescendo 38%, a vitivinicultura gaúcha consolida sua posição regional. Para o varejo e a gastronomia, apostar em rótulos nacionais reduz a exposição cambial e fortalece narrativas de identidade, algo que ressoa com o consumidor contemporâneo.
Atenção ao risco de médio prazo. O consumo per capita brasileiro ainda está em níveis baixos. O crescimento do mercado em valor está concentrado em consumidores de renda mais alta, o que o torna mais sensível a ciclos econômicos. Se o Brasil entrar em desaceleração, o vinho pode ser um dos primeiros itens cortados do orçamento da classe média que descobriu a bebida nos últimos anos.
O Brasil, mesmo com todos os problemas, é uma luz no fim do túnel
A geopolítica do vinho em 2026 seria irreconhecível para um analista de dez anos atrás. A Rússia saiu do mapa como importador. A China desacelerou. Os Estados Unidos erigiram barreiras que remodelam fluxos comerciais. A Europa convive com excesso de estoque. E o Brasil, mesmo com todos os graves problemas políticos, Selic elevada e desafios fiscais, cambiais e logísticos, emergiu como um dos poucos mercados com crescimento real e consistente.


