O envelhecimento acelerado da população brasileira começa a reconfigurar o mercado imobiliário e impulsionar o avanço de um segmento ainda incipiente no País, mas já consolidado em economias desenvolvidas. Trata-se do senior living, modelo que combina moradia, serviços e, em alguns casos, cuidados assistenciais, com foco na autonomia e na qualidade de vida da população idosa. Nesse contexto, a Bioeng, liderada pelo engenheiro curitibano Norton Mello, tem se posicionado como uma das protagonistas na estruturação desse mercado no Brasil.
Com 32 anos de atuação e mais de 2 milhões de metros quadrados projetados em 42 cidades, a empresa acumula mais de 500 projetos no portfólio e mantém atualmente entre 15 e 20 empreendimentos em execução, incluindo hospitais, clínicas, centros médicos e residenciais voltados ao público sênior. Segundo Mello, a entrada no segmento de senior living não foi apenas uma diversificação de atuação, mas uma resposta a uma transformação estrutural da sociedade.
“O produto imobiliário é consequência de uma demanda reprimida. Antes de pensar no ativo, é preciso entender a jornada do envelhecimento e como essa população quer viver”, afirmou a o executivo.
A tese encontra respaldo nos dados demográficos. O Brasil já conta com mais de 34 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, e as projeções indicam que esse grupo deve representar cerca de um quarto da população até 2060. Em um horizonte mais longo, o País caminha para um perfil etário semelhante ao europeu, com forte predominância de idosos. No cenário global, a tendência é ainda mais expressiva. Segundo a Organização das Nações Unidas, a população com mais de 65 anos deve dobrar até 2050, ultrapassando 1,5 bilhão de pessoas.
Na avaliação de Mello, o ritmo de envelhecimento na América do Sul é particularmente acelerado. Enquanto a Europa levou cerca de 80 anos para consolidar sua transição demográfica, países sul-americanos devem percorrer esse caminho em poucas décadas. “Entre 2020 e 2030, a população idosa europeia cresce cerca de 23%, enquanto na América do Sul esse avanço chega a 71%. É algo sem precedentes e para o qual ainda não estamos preparados”, afirmou.
Esse descompasso entre demanda e oferta cria uma janela de oportunidade para o mercado imobiliário. Diferentemente dos empreendimentos tradicionais, o senior living incorpora serviços e infraestrutura pensados para prolongar a independência do morador. O conceito abrange diferentes níveis de atendimento, desde residências independentes até estruturas assistenciais mais complexas, como instituições de longa permanência e unidades voltadas a cuidados especializados.
No Brasil, no entanto, o setor ainda enfrenta desafios estruturais. A legislação concentra diferentes modelos sob uma mesma classificação, o que gera distorções e dificulta o desenvolvimento de produtos mais segmentados. Além disso, há uma barreira cultural relevante. “Existe uma memória afetiva de que moradia para idosos é sinônimo de asilo. O senior living rompe com isso ao propor um ambiente ativo, com estímulos físicos, cognitivos e sociais”, disse Mello.
A mudança de percepção é um dos principais vetores de crescimento do segmento. Empreendimentos mais recentes têm incorporado conceitos que vão além da arquitetura adaptada, incluindo áreas de convivência, atividades estruturadas e até recursos tecnológicos voltados à saúde e ao bem-estar. Segundo o executivo, o erro mais comum ainda é tratar o produto como uma simples adaptação do residencial tradicional. “Não é só porta mais larga e barra no banheiro. É pensar em como o ambiente contribui para prolongar a autonomia do indivíduo”, garantiu.
Do ponto de vista econômico, o potencial do setor já se traduz em números expressivos. A Bioeng registrou receita de R$ 72 milhões em 2025 e projeta crescimento para cerca de R$ 100 milhões em 2026. Considerando os projetos estruturados pela empresa, o volume geral de desenvolvimento imobiliário associado pode chegar a cerca de R$ 3 bilhões no próximo ano.
No campo prático, os projetos começam a ganhar escala, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, onde a renda média e a expectativa de vida são mais elevadas. Cidades como Curitiba, Florianópolis e Balneário Camboriú despontam como polos de desenvolvimento, impulsionadas também pela infraestrutura de saúde e pelo perfil do público consumidor. Um dos empreendimentos acompanhados pela empresa, na capital paranaense, registrou velocidade de vendas superior ao esperado e valorização de até 40% no preço por metro quadrado em relação a produtos tradicionais.
O modelo também apresenta características distintas de demanda. No segmento independente, a decisão costuma partir do próprio idoso, que busca simplificar a rotina e reduzir custos de manutenção. Já nas modalidades assistenciais, a escolha tende a ser feita por familiares, refletindo uma dinâmica social mais complexa e, muitas vezes, sobrecarregada.
Apesar do avanço, o mercado ainda está em fase inicial de maturação. Segundo Mello, o País deve passar por um período de experimentação, com o surgimento de produtos bem-sucedidos e outros menos aderentes às necessidades do público. “O Brasil está vivendo hoje o que Estados Unidos e Europa viveram há 40 anos. O entendimento do modelo ainda está sendo construído”, afirmou.
A perspectiva de longo prazo, no entanto, é clara. O envelhecimento populacional, combinado com a mudança no perfil de consumo e na estrutura familiar, tende a consolidar o senior living como uma das principais frentes de expansão do mercado imobiliário nas próximas décadas. Mais do que uma tendência, trata-se de uma resposta estrutural a uma nova configuração demográfica, em que viver mais exige também novas formas de morar.


