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NR-1 incentiva empresas a enfrentar custos do presenteísmo e reforça pauta de saúde

NR-1 incentiva empresas a enfrentar custos do presenteísmo e reforça pauta de saúde

A crescente preocupação com perdas de produtividade associadas ao presenteísmo tem levado empresas brasileiras a acelerar a adoção da Norma Regulamentadora nº 1, que trata do gerenciamento de riscos ocupacionais. A atualização mais recente amplia o escopo da norma ao incorporar, de forma explícita, os riscos psicossociais, o que reposiciona a saúde mental como variável estratégica dentro das organizações e altera a forma como o capital humano passa a ser gerido.

Reformulada em 2019 e posteriormente revisada por portarias do Ministério do Trabalho e Emprego, a NR-1 consolidou o Programa de Gerenciamento de Riscos como eixo central das políticas de segurança e saúde no trabalho. Com vigência prevista para maio deste ano, o novo modelo estabelece uma abordagem contínua e estruturada, baseada na identificação de perigos, avaliação de riscos, implementação de medidas preventivas e monitoramento permanente, substituindo a lógica tradicional centrada apenas na reação a eventos já consolidados.

Bennelson da Silva Barbosa afirma que o problema se agrava porque os efeitos não aparecem de forma imediata

A principal mudança introduzida na atualização de 2024 é a obrigatoriedade de considerar fatores como estresse ocupacional, assédio, sobrecarga e violência organizacional. Esses elementos estão diretamente associados ao presenteísmo, fenômeno em que o trabalhador permanece fisicamente no ambiente corporativo, mas sem condições plenas de desempenho cognitivo ou emocional.

Para especialistas, a inclusão desses fatores tende a revelar uma camada pouco visível de perdas operacionais, que historicamente ficaram fora do radar das empresas. “Os erros expandem, decisões demoram mais e o retrabalho cresce. São fatores que podem ser mensurados por indicadores de qualidade e produtividade, mas raramente atribuídos à saúde mental”, afirmou o psicólogo Bennelson da Silva Barbosa, implementador da NR-1. Segundo ele, o problema se agrava porque os efeitos não aparecem de forma imediata e linear, o que dificulta a identificação da causa raiz dentro das organizações.

Na avaliação do especialista, o presenteísmo se manifesta em etapas progressivas. Primeiro há a redução da capacidade cognitiva, seguida por conflitos interpessoais, aumento da rotatividade e, por fim, maior utilização de serviços médicos, especialmente nas áreas de psiquiatria e neurologia. “Isso demonstra um padrão que as operadoras conseguem identificar por sinistralidade, mas que as empresas raramente cruzam com dados de clima organizacional”, observou.

Os números ajudam a dimensionar a magnitude do problema. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que transtornos como ansiedade e depressão provocam a perda de cerca de 12 bilhões de dias úteis por ano no mundo, com impacto econômico superior a US$ 1 trilhão. No Brasil, as perdas relacionadas à saúde mental no trabalho chegam a R$ 468 bilhões anuais, enquanto os afastamentos por transtornos mentais geraram custos próximos de R$ 3 bilhões em 2024, segundo o Instituto Nacional do Seguro Social.

O país também lidera o ranking global de ansiedade, com cerca de 9,3% da população afetada, e aparece entre os primeiros em incidência de burnout, com aproximadamente 30% dos trabalhadores impactados, de acordo com entidades médicas. Esse cenário amplia a relevância da NR-1 ao introduzir uma lógica preventiva em substituição a modelos reativos, historicamente focados apenas em absenteísmo e afastamentos formais.

Na prática, a implementação da norma tem incentivado empresas a integrar diferentes bases de dados, como absenteísmo de curta duração, uso de planos de saúde, rotatividade por área e pesquisas de clima organizacional. A leitura combinada dessas informações permite identificar padrões antes invisíveis e agir preventivamente. “Quando esses dados são analisados em conjunto, os padrões de presenteísmo emergem antes que o quadro evolua para afastamento. A empresa que espera o afastamento para agir já perdeu a janela preventiva e já acumulou passivos que não aparecem no balanço”, alertou Barbosa.

A experiência da Obra Social Santa Edwiges, entidade do terceiro setor localizada em São Paulo, ilustra como a norma vem sendo incorporada à estratégia de gestão. Após enfrentar afastamentos inesperados e desorganização operacional, a instituição passou a adotar a NR-1 como ferramenta de governança. Hoje, a organização já se encontra na fase de monitoramento contínuo dos riscos.

“Hoje, quem investe em uma instituição deseja segurança, responsabilidade e conformidade com a legislação. A adequação à NR-1 fortalece a credibilidade porque demonstra organização e compromisso com boas práticas”, afirmou o gestor geral Marcio Lima. Segundo ele, a mudança de postura trouxe ganhos concretos. “Aprendemos que é melhor cuidar antes do desgaste virar crise. Isso economiza energia, tempo, recursos e o financeiro”, acrescentou.

Outro exemplo vem do setor privado regional. A Funerária Santa Terezinha, em Cuiabá, iniciou recentemente o processo de implementação da norma com foco na identificação de causas de rotatividade e aumento de afastamentos. “Nossa expectativa é que, com o diagnóstico, possamos ter colaboradores mais saudáveis e entender melhor os fatores que impactam o ambiente de trabalho”, afirmou Adriana Nunes, da área administrativa.

Segundo ela, o desafio central é equilibrar custos e eficiência. “Não queremos investir apenas em contratações, mas em melhorias estruturais que promovam um ambiente de segurança emocional e confiança entre as equipes”, disse.

Do ponto de vista econômico, a adoção da NR-1 ainda gera debate entre especialistas. Para o economista Mauri da Silva, o impacto depende diretamente do nível de maturidade da gestão empresarial e do contexto de mercado em que a empresa está inserida. “Para algumas organizações, a norma representa um ônus inicial. Mas preservar a saúde mental deixou de ser apenas uma questão ética. É uma necessidade econômica em um mercado com escassez de talentos”, afirmou.

Ele destaca que mecanismos como o Fator Acidentário de Prevenção reforçam esse movimento ao ajustar a carga tributária conforme o histórico de afastamentos. Empresas com altos índices de adoecimento podem ter a contribuição previdenciária ampliada, enquanto aquelas que investem em prevenção conseguem reduzir esse custo. “A regulação não substitui a estratégia empresarial, mas altera o cálculo de custo de oportunidade para quem ainda acredita que é mais barato adoecer o trabalhador do que cuidá-lo”, disse.

Nesse cenário, a NR-1 passa a ser interpretada como instrumento de proteção de valor. Ambientes corporativos deteriorados, além de comprometerem a produtividade, dificultam a retenção de profissionais e podem gerar passivos ocultos que impactam processos de fusões e aquisições. “Ambientes tóxicos sofrem para reter talentos e revelam riscos que acabam sendo descontados no preço da empresa, muitas vezes tarde demais”, afirmou Silva.

Apesar dos avanços regulatórios, especialistas apontam desafios diante das transformações recentes no mundo do trabalho, especialmente com a disseminação da inteligência artificial. O uso intensivo dessas tecnologias tem ampliado riscos associados à chamada ansiedade tecnológica, caracterizada por pressão constante por adaptação, hiperconectividade e sensação de perda de controle.

“Gestão por algoritmo, hiperconectividade e obsolescência acelerada de habilidades representam uma nova categoria de risco psicossocial. O agente causador não é humano, o que complica o diagnóstico e a responsabilização jurídica”, explicou Barbosa. Segundo ele, embora a NR-1 ainda não disponha de metodologias específicas para mensurar esses riscos, a inclusão de categorias amplas permite algum nível de enquadramento.

Para a psicóloga Claudiane Reis, a atualização da norma já sinaliza uma mudança estrutural no ambiente corporativo brasileiro. “A NR-1 é uma regulamentação que faz doer no bolso pela conscientização em relação à saúde do trabalhador. É o capital humano que alavanca o capital financeiro, e isso exige investimento em programas que evitem o adoecimento”, afirmou.

Ela ressalta ainda o papel de ferramentas como a pesquisa de clima organizacional na construção de indicadores mais precisos. “A pesquisa sinaliza o nível de satisfação e engajamento dos colaboradores. É uma métrica essencial para avaliar se o ambiente está saudável e sustentável no longo prazo”, disse Claudiane.

A tendência, segundo analistas, é que a saúde mental se consolide como eixo central da competitividade empresarial nos próximos anos. Em um mercado marcado por menor disponibilidade de mão de obra e maior exigência por produtividade, o cuidado com o trabalhador deixa de ser um diferencial e passa a integrar a lógica de preservação do ativo produtivo.

Nesse contexto, a NR-1 emerge não apenas como instrumento regulatório, mas como catalisador de uma mudança cultural mais ampla, em que desempenho e bem-estar deixam de ser conceitos antagônicos e passam a caminhar de forma indissociável dentro das estratégias corporativas.




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