O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou em 2026 operando sob uma lógica clássica da economia política: ampliar estímulos para sustentar crescimento e recompor capital político em um ano eleitoral, mesmo diante de restrições fiscais e de um cenário global mais desafiador.
O movimento é amplo e coordenado. Inclui a elevação do salário mínimo para R$ 1.717 a partir de 2027, a ampliação de programas sociais e habitacionais, como o Minha Casa Minha Vida, reforço no crédito via bancos públicos, propostas trabalhistas com forte apelo popular, como o debate sobre o fim da escala 6×1, além de medidas emergenciais para conter a inflação em meio ao choque externo provocado pela guerra envolvendo o Irã.
Na prática, trata-se de um pacote que combina expansão fiscal, política de renda e estímulos indiretos ao consumo e ao investimento. Estimativas do mercado indicam que o volume total de incentivos pode alcançar R$ 742 bilhões em 2026, o equivalente a 5,4% do PIB, com crescimento expressivo em relação ao ano anterior.
Para economistas, o desenho não é casual. Ele se insere no chamado ciclo político da economia, no qual governos ampliam gastos e transferências em períodos eleitorais para sustentar a atividade e melhorar a percepção da população. Esse padrão, historicamente observado na América Latina, costuma gerar crescimento no curto prazo, mas carrega riscos de médio prazo.
“O populismo macroeconômico enfatiza crescimento e renda e tende a minimizar riscos fiscais e inflacionários”, descrevem os economistas Rudiger Dornbusch e Sebastian Edwards, em definição clássica do conceito.
No caso brasileiro, o governo aposta que o impulso à renda terá efeito direto sobre o consumo, principal motor da economia. A elevação do salário mínimo, por exemplo, tem impacto multiplicador relevante, pois reajusta automaticamente aposentadorias, benefícios sociais e parte dos salários do setor formal.
Ao mesmo tempo, programas como o Minha Casa Minha Vida voltam a ocupar papel central na estratégia econômica. Além do apelo social, o setor da construção civil tem elevada capacidade de geração de empregos e encadeamentos produtivos, funcionando como vetor rápido de crescimento.
Mas é na fronteira fiscal que surgem os principais pontos de tensão.
Embora o governo sinalize medidas de compensação, como o congelamento de benefícios fiscais e o controle de gastos com pessoal, analistas avaliam que o equilíbrio entre expansão e ajuste ainda é incerto. O próprio Ministério do Planejamento já indicou que regras mais rígidas de contenção de despesas e incentivos tributários devem ganhar força a partir de 2027, numa tentativa de recompor a sustentabilidade das contas públicas.
O alerta é compartilhado pelo mercado financeiro internacional. Em relatório recente, o economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, afirmou que “a política fiscal terá de mudar” após 2026 para evitar instabilidade e crescimento da dívida.
A preocupação é que a dívida pública brasileira já se aproxima de níveis elevados para padrões emergentes, e a combinação de gasto crescente com juros altos aumenta o custo de financiamento do Estado. Caso a expansão fiscal pressione a inflação, o Banco Central tende a manter a política monetária restritiva por mais tempo, o que encarece crédito e limita o investimento privado.
Esse dilema ganha complexidade adicional com o cenário internacional. A guerra no Oriente Médio, com impactos sobre o preço do petróleo, eleva custos de produção e transporte globalmente, pressionando a inflação. No Brasil, o efeito é direto sobre combustíveis, logística e alimentos.
Nesse contexto, a política econômica passa a operar em direções parcialmente opostas. Enquanto o governo estimula a demanda por meio de renda e crédito, o Banco Central atua para conter pressões inflacionárias, mantendo juros elevados.
Para o economista André Roncaglia, o Brasil ainda apresenta alguma resiliência diante do cenário global, mas isso não elimina a necessidade de calibragem. Em análises recentes, ele destaca que o País está “bem posicionado” para enfrentar a desaceleração internacional, mas condicionado à manutenção de uma coordenação macroeconômica consistente.
Já o economista Fernando de Holanda Barbosa tem histórico de alertas sobre o peso estrutural do gasto público e a necessidade de eficiência. Em suas análises, o desequilíbrio fiscal recorrente tende a pressionar inflação e juros, criando ciclos de crescimento instável.
O pano de fundo é um ambiente político mais volátil. O Brasil se aproxima das eleições de 2026 com aumento da incerteza institucional, pressão sobre as contas públicas e dúvidas sobre a trajetória de crescimento sustentável.
Dentro do governo, a aposta é que o efeito líquido das medidas será positivo. A leitura predominante é que renda, emprego e acesso ao crédito têm maior peso na percepção do eleitor do que variáveis fiscais. Em outras palavras, o curto prazo tende a prevalecer sobre o médio prazo na dinâmica política.
O risco é que essa estratégia produza um efeito de “ganho agora, custo depois”. Se o estímulo fiscal impedir a queda dos juros ou reverter a trajetória de desinflação, o crescimento pode perder fôlego justamente após o ciclo eleitoral, exigindo ajustes mais duros à frente.
O Brasil, mais uma vez, se encontra diante de um dilema recorrente em sua história econômica: até que ponto é possível expandir sem comprometer a estabilidade.
Entre a política e a economia, o governo tenta equilibrar variáveis que raramente caminham juntas. O sucesso dessa equação não definirá apenas o resultado das urnas, mas o ponto de partida do próximo ciclo econômico do País.


