A resposta curta e direta é: ainda não.
A resposta longa é um pouco mais complexa, mas importante para qualquer um que queira entender o mercado e se preparar para um futuro mais competitivo e tecnológico.
Nos últimos anos, no varejo, especialmente no varejo alimentar, houve avanços relevantes em eficiência operacional, digitalização e uso de dados. Redes estruturaram áreas dedicadas à performance, adotaram novas tecnologias e ampliaram a visibilidade sobre suas operações.
Lojas passaram a incorporar sensores, sistemas de gestão mais robustos e iniciativas de monitoramento de equipamentos críticos, como refrigeração e climatização.
Mas ver não é o mesmo que controlar. A maior parte das operações já consegue acessar dados, mas o que acontece depois disso? A capacidade de detectar desvios em tempo real, interpretar corretamente o que está acontecendo e, principalmente, agir com velocidade e precisão ainda é limitada.
Isso se torna ainda mais crítico quando falamos em reduzir equipes nas lojas. Menos pessoas significa menos redundância operacional. Ou seja, qualquer falha que seria absorvida por intervenção humana passa a depender diretamente da capacidade do sistema em antecipar e resolver problemas.
O problema é que, hoje, três limitações estruturais continuam presentes na maioria das operações: automação inconsistente, ausência de monitoramento contínuo e baixa integração entre áreas. Na prática, isso significa que muitos varejistas operam com ilhas de informação. Há dados sobre equipamentos, dados sobre vendas, dados sobre perdas, mas eles não conversam entre si de forma eficiente. E, quando conversam, nem sempre geram ações coordenadas.
Um erro recorrente, por exemplo, é acreditar que a presença de dashboards, sensores ou relatórios já indica maturidade. Não indica. Maturidade operacional exige uma arquitetura completa, sustentada por quatro camadas que precisam funcionar de forma integrada: sensoriamento, que garante a captura confiável dos dados; análise, responsável por identificar desvios e padrões relevantes; decisão, onde ocorre a priorização do que realmente importa; ação, que transforma informação em execução no campo.
A maior parte do varejo brasileiro avançou nas duas primeiras camadas. Consegue coletar dados e, em muitos casos, analisá-los. Mas ainda enfrenta dificuldades nas etapas seguintes.
Sem uma lógica clara de priorização, a operação se perde em alertas que competem entre si, e o resultado é ruído.
Esse é o ponto central. O desafio do varejo brasileiro não é tecnológico, porque a tecnologia já existe, inclusive com soluções avançadas de inteligência de dados. O que ainda falta é maturidade operacional para orquestrar tudo isso.
Reduzir equipes sem essa base não gera eficiência. Gera risco. A construção dessa maturidade passa por transformar dados em decisão e decisão em ação, de forma consistente, integrada e escalável. Só então será possível operar com menos pessoas sem comprometer a qualidade, a segurança e o resultado financeiro.
Até lá, qualquer movimento nessa direção tende a ser mais uma aposta do que uma estratégia.
*Sami Diba é CEO da NEO Estech, plataforma de inteligência de dados


