Existe uma narrativa que circula no Brasil como verdade científica. Ela resiste a dados, a história e a qualquer evidência empírica séria.
A narrativa diz: o Estado é o problema. Corte tributos, reduza regulação, deixe o mercado funcionar. Os países ricos chegaram onde chegaram porque o Estado saiu do caminho.
Essa narrativa é empiricamente falsa. Os dados provam isso de forma categórica.
Os países que hoje pregam menos Estado para o Brasil foram exatamente os que mais usaram Estado para ficar ricos. EUA, Coreia do Sul, Alemanha, Japão, China. Todos construíram riqueza com proteção tarifária, subsídios industriais, bancos públicos de desenvolvimento e política industrial ativa. Nenhum chegou lá pelo caminho que recomendam para nós.
Hoje mostrarei o que a evidência histórica diz, por que a lógica econômica explica esse padrão, e o que o Brasil precisa entender antes que a janela feche.
O que a história dos países ricos realmente mostra
Os Estados Unidos são o maior exportador do discurso do livre mercado. E também o maior exemplo de hipocrisia histórica nesse debate.
Nos séculos XVIII e XIX, os EUA construíram sua indústria com tarifas altíssimas. Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro americano, escreveu o Relatório sobre Manufaturas em 1791 defendendo explicitamente proteção industrial. As tarifas sobre produtos manufaturados chegaram a 40–50% e assim permaneceram por décadas. O American System de Henry Clay era política industrial declarada, sem eufemismos.
A Coreia do Sul é o caso mais dramático.
O governo Park Chung-hee, nos anos 1960 e 1970, fez o oposto de liberalizar. Escolheu setores estratégicos, montou conglomerados como Samsung e Hyundai com crédito público subsidiado, impôs metas de exportação sob pena de perda de financiamento, e usou o Banco de Desenvolvimento da Coreia como braço executivo da política industrial.
Em poucas décadas, a Coreia saltou de uma renda per capita similar à do Gana para a fronteira tecnológica global.
Friedrich List, o economista por trás da industrialização alemã no século XIX, disse com todas as letras: o livre comércio é a doutrina dos que já chegaram ao topo, porque consolida sua vantagem sobre quem está subindo.
Para países em desenvolvimento, adotar o livre mercado antes de ter indústria é suicídio econômico.
Taiwan, Finlândia, Japão, China. O padrão é o mesmo: Estado ativo, planejamento de longo prazo, bancos de desenvolvimento, proteção seletiva e learning by doing acumulado ao longo de décadas.
Isso não é coincidência. É o mecanismo.
Por que a lógica econômica explica esse padrão
A abordagem da complexidade econômica, desenvolvida por Ricardo Hausmann e Cesar Hidalgo em Harvard, dá a base teórica para o que a história já mostrou empiricamente.
Países ricos exportam produtos complexos: máquinas, equipamentos, fármacos, semicondutores. Países pobres exportam commodities e produtos de baixo valor adicionado.
A diferença de renda entre eles é estrutural, não acidental.
Subir na escada tecnológica não acontece espontaneamente.
O problema é de coordenação: empresas precisam de trabalhadores qualificados que só existem se outras empresas já os treinaram; tecnologia que só surge se houver demanda; infraestrutura que só se justifica se houver indústria para usá-la. São círculos viciosos que apenas um orquestrador externo pode quebrar.
Esse orquestrador é o Estado.
É por isso que toda industrialização bem-sucedida da história envolveu intervenção estatal.
A Embraer é a prova viva disso. Existe porque o Estado brasileiro investiu em engenheiros durante décadas, criou o ITA, subsidiou pesquisa e construiu as condições iniciais para que a empresa pudesse competir na fronteira tecnológica. O mercado não produziria a Embraer sozinho.
Isso é fato histórico documentado.
A correlação entre Estado ativo e desenvolvimento é mecanismo causal, não coincidência.
A maioria das análises econômicas que você lê na imprensa trata política industrial como ideologia. Economistas que estudam desenvolvimento de verdade tratam como engenharia: mecanismos, incentivos, sequenciamento. São dois idiomas completamente diferentes — e só um deles permite fazer previsões corretas.
Por que o argumento da ineficiência estatal não se sustenta
“O Estado brasileiro é ineficiente.” Essa é a objeção mais comum. Tem um fundo de verdade.
O problema está na conclusão que se tira daí.
A resposta para um Estado ineficiente é um Estado mais capaz, mais bem desenhado, com melhores incentivos e mecanismos de accountability. A resposta não é ausência de Estado. Países de renda média sem política industrial ativa não se tornam prósperos. Perdem complexidade econômica. Ficam presos na armadilha da renda média.O Brasil dos últimos 30 anos é a evidência empírica. Depois das reformas liberalizantes dos anos 1990, o país desmontou sua estrutura de política industrial. O resultado foi queda no grau de industrialização, perda de complexidade relativa no ECI (Índice de Complexidade Econômica) e crescimento medíocre da produtividade.
Enquanto isso, a China manteve e aprofundou sua política industrial. O resultado: segunda maior potência econômica do mundo em menos de quatro décadas.
Quem apostou em “menos Estado” ficou para trás. Quem construiu Estado capaz e orientado avançou. Os dados não são ambíguos.
O que realmente importa no debate
O debate “Estado grande vs. Estado pequeno” é uma armadilha. Quem cai nela não chega a lugar nenhum.
O debate produtivo é outro: qual Estado? Com que capacidade? Para fazer o quê? Com quais instrumentos?
Os países que se desenvolveram construíram capacidade real: identificar setores estratégicos, prover financiamento de longo prazo via bancos de desenvolvimento, investir em ciência, tecnologia e inovação, e criar condições para que o setor privado acumule capacidade produtiva nova.
O BNDES, quando bem utilizado, é instrumento de desenvolvimento. O Banco de Desenvolvimento da Coreia foi peça central no milagre coreano. O DARPA americano financiou a internet, o GPS e boa parte da revolução biotecnológica.
Ninguém chama os EUA de socialistas por isso.
A discussão sobre o tamanho do Estado é uma distração. O que importa é a qualidade do Estado e a clareza de sua missão.
A janela que se fecha
O Brasil está em um momento de definição.
A transição energética global, a reorganização das cadeias produtivas após a pandemia, o reshoring e o nearshoring em setores estratégicos criam uma janela de oportunidade concreta. Países com capacidade estatal para identificar esses vetores e mobilizar recursos em torno deles vão subir na escada tecnológica.
Países que ficarem esperando “o mercado resolver” vão continuar exportando commodities e importando tecnologia.
O Brasil tem os ativos: recursos naturais que viabilizam a bioeconomia, escala de mercado, base científica ainda funcionando. Falta o projeto. E projetos se constroem.
Nenhum país ficou rico esperando. Todos construíram.
Paulo Gala, Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo
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