Pesquisa mostra potencial de consumo da chamada ‘economia prateada’


Os brasileiros com mais de 50 anos já movimentam cifras bilionárias em saúde, confirmando que o envelhecimento não é apenas um fenômeno demográfico, mas um vetor econômico de peso. Em 2024, o setor de saúde (público e privado) respondeu por R$ 700 bilhões em consumo nos lares brasileiros, sendo que os 50+ foram responsáveis por 35% desse total – o equivalente a R$ 247 bilhões em apenas um ano. Na projeção, a cifra do consumo total em saúde deve ser de R$ 915 bilhões em 2034, chegando a R$ 1,13 trilhão em 2044.

Considerando as médias de renda per capita da população 50+, o Centro-Oeste tem estimativa de um consumo per capita mensal de R$ 1.941, a maior entre as regiões brasileiras.  A maior parte dos gastos irá para habitação e alimentação.

Esses são alguns dos dados que compõem a pesquisa Mercado Prateado: consumo dos brasileiros 50+ e projeções – que dimensiona, pela primeira vez no país, a cesta de consumo da população madura a partir de uma perspectiva econômica e setorial; traz, ainda, projeção para 10 e 20 anos sobre o impacto do envelhecimento populacional em setores da economia.

No recorte analítico sobre a saúde, há um dado que revela as particularidades do contexto nacional: os prateados consomem 75% a mais em saúde do que a população abaixo de 50 anos, com um consumo mensal per capita de R$ 233 contra R$ 96 dos mais jovens. Essa diferença se explica pelo protagonismo dos planos de saúde, remédios e suplementos, que juntos representam 79% da cesta mensal de saúde dos brasileiros. Entre os 50+, o consumo de medicamentos e suplementos é ainda mais expressivo que entre os mais jovens.

A pesquisa também mostra uma virada comportamental: a saúde preventiva já faz parte da rotina dessa geração prateada: 63% realizam check-ups anuais, 46% seguem uma dieta balanceada, 43% controlam o peso corporal e 39% praticam atividades físicas regularmente. Segundo Lívia Hollerbach, uma das coordenadoras da pesquisa, após a pandemia, quase sete em cada 10 pessoas passaram a priorizar mais a saúde no cotidiano, reforçando que longevidade e autocuidado se tornaram ativos centrais para esse grupo.

Os recortes de classe, gênero e região revelam contrastes importantes. As mulheres investem mais em cuidados de saúde, enquanto os homens concentram maior parte do consumo em transporte. Os prateados de classes mais altas diversificam gastos, ampliando consumo em recreação e tratamentos privados, enquanto os mais pobres e negros enfrentam o “custo da longevidade” focado em sobrevivência. Regionalmente, o Sudeste se destaca pelo maior consumo em saúde (R$ 293 mensais), enquanto Norte e Nordeste concentram a cesta em alimentação e habitação.

ETÁRIO – À medida que a idade avança, a saúde ganha espaço cada vez maior na cesta de consumo prateada. Enquanto um brasileiro entre 50 e 54 anos destina cerca de 11% de seus gastos mensais à saúde, esse percentual sobe progressivamente até atingir 21% entre os 80+. Importante ressaltar que o valor total de consumo mensal se mantém relativamente estável ao longo das décadas, mas a composição muda radicalmente: o idoso de 80 anos ou mais consome quase o dobro em serviços e produtos de saúde em comparação a quem tem pouco mais de 50 anos. “Isso revela uma transição silenciosa. A longevidade não necessariamente aumenta o consumo em termos absolutos, mas redefine prioridades, deslocando recursos de transporte, lazer e vestuário para cuidados médicos, medicamentos e assistência contínua”, aponta Lívia.

CLASSE SOCIAL – A análise por classe social revela que, independentemente da renda, a saúde ocupa lugar de destaque na cesta prateada. Entre os mais ricos (classe A), 16% do consumo mensal é destinado a produtos e serviços de saúde, ficando atrás apenas de transporte e alimentação. Já nas classes intermediárias, o peso da saúde se mantém elevado – 14% na classe B e 15% na classe C –, ainda que o orçamento seja mais restrito. Nos estratos mais vulneráveis economicamente (classe D), mesmo diante de escolhas de sobrevivência centradas em habitação e alimentação, a saúde representa 12% dos gastos mensais, evidenciando a pressão que o envelhecimento exerce sobre as famílias de menor renda.

REGIONAL – As diferenças regionais expõem como a geografia também define a longevidade no consumo. No Sudeste, a saúde assume protagonismo: os prateados gastam em média R$ 293 mensais em serviços e produtos do setor, fazendo da região o maior polo de consumo de saúde do país. Já no Centro-Oeste e no Sul, o transporte pesa mais na cesta, refletindo tanto a dependência de deslocamentos quanto a aquisição e manutenção de veículos. No Norte e no Nordeste, por outro lado, a realidade é de restrição: o consumo per capita é o mais baixo do Brasil, portanto, a cesta é dominada por alimentação e habitação, com gastos modestos em saúde e cuidados pessoais.

PROJEÇÕES PRATEADAS – O Brasil avança para um cenário em que a saúde será o verdadeiro epicentro do consumo. As projeções do data8 apontam para uma expansão sem precedentes: em 2034, o setor deve movimentar R$ 915 bilhões, com os prateados respondendo por 43% desse total. Duas décadas depois, em 2044, a participação do grupo alcançará a marca simbólica de 50%, consolidando-se como metade de todo o gasto em saúde no país. Nesse horizonte, o volume movimentado saltará para R$ 1,3 trilhão, com crescimento consistente em todas as frentes – das consultas médicas e dos exames a tratamentos dentários, cirurgias e hospitalizações.

O detalhamento do estudo revela a amplitude dessa expansão, impulsionada pelo rápido envelhecimento populacional. Entre 2024 e 2034, o share prateado aumentará em todas as categorias: exames diversos subirão de 34% para 41%; serviços de cirurgia, de 28% para 35%; remédios, de 35% para 43%; tratamento médico e ambulatorial, de 31% para 38%; hospitalizações, de 20% para 26%; planos de saúde, de 36% para 44%; consultas e tratamentos dentários, de 27% para 34%; consultas médicas, de 32% para 39; e materiais de tratamento, de 31% para 38%.

Com o share prateado crescendo de 35% em 2024 para 50% em 2044, em apenas duas décadas, os brasileiros 50+ irão consumir R$ 559 bilhões em produtos e serviços de saúde, consolidando o setor como o eixo central da economia da longevidade.

Para uma das coordenadoras da pesquisa, Lívia Hollerbach, não se trata apenas de mais prateados consumindo, mas de um consumo mais diversificado e frequente. “Metade de tudo o que será gasto em saúde no Brasil virá diretamente desse grupo etário, e em todas as categorias analisadas vemos um aumento expressivo”, afirma.

As projeções reforçam ainda que, até 2034, a saúde será o setor de maior expansão na cesta de consumo nacional. Nesse período, sua participação avançará 4,81 pontos percentuais, um salto superior a qualquer outra categoria. “Enquanto educação, vestuário e transporte perdem espaço, a saúde se consolida como o grande eixo da longevidade, redirecionando recursos familiares para consultas, medicamentos, exames e suplementação”, analisa Lívia, acrescentando que se trata do maior share prateado de todos os analisados, à frente, inclusive, de habitação e alimentação. “A cada R$ 10 gastos em saúde no Brasil, quase R$ 5 virão da população com mais de 50 anos, confirmando a centralidade desse grupo para a sustentabilidade do sistema de saúde público e privado”, pontua.

RETRATO DO CONSUMO | CESTA REGIONAL

50+ GERAL | Consumo per capita mensal R$ 1.630 | Amostra 47.572

Alimentação | 25%

Serviços pessoais | 2%

Despesas diversas | 2%

Habitação | 28%

Vestuário | 5%

Transporte | 15%

Higiene e cuidados pessoais | 5%

Assistência à saúde | 14%

Educação | 1%

Recreação e cultura | 2%

50+ NORTE | Consumo per capita mensal R$ 1.064 | Amostra 5.521

Alimentação | 29%

Serviços pessoais | 1%

Despesas diversas | 2%

Habitação | 30%

Vestuário | 6%

Transporte | 13%

Higiene e cuidados pessoais | 7%

Assistência à saúde | 9%

Educação | 1%

Recreação e cultura | 1%

50+ NORDESTE | Consumo per capita mensal R$ 1.143 | Amostra 15.479

Alimentação | 30%

Serviços pessoais | 1%

Despesas diversas | 2%

Habitação | 26%

Vestuário | 6%

Transporte | 13%

Higiene e cuidados pessoais | 7%

Assistência à saúde | 13%

Educação | 1%

Recreação e cultura | 1%

50+ CENTRO-OESTE | Consumo per capita mensal R$ 1.941 | Amostra 5.647

Alimentação | 22%

Serviços pessoais | 2%

Despesas diversas | 3%

Habitação | 27%

Vestuário | 5%

Transporte | 18%

Higiene e cuidados pessoais | 5%

Assistência à saúde | 14%

Educação | 1%

Recreação e cultura | 2%

50+ SUDESTE | Consumo per capita mensal R$ 1.837 | Amostra 13.406

Alimentação | 22%

Serviços pessoais | 2%

Despesas diversas | 3%

Habitação | 29%

Vestuário | 5%

Transporte | 16%

Higiene e cuidados pessoais | 5%

Assistência à saúde | 16%

Educação | 1%

Recreação e cultura | 2%

50+ SUL | Consumo per capita mensal R$ 1.849 | Amostra 7.519

Alimentação | 23%

Serviços pessoais | 1%

Despesas diversas | 3%

Habitação | 28%

Vestuário | 5%

Transporte | 18%

Higiene e cuidados pessoais | 5%

Assistência à saúde | 14%

Educação | 1%

Recreação e cultura | 2%

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