O que começou como uma brincadeira entre adolescentes de Campo Grande, se tornou um canal no YouTube com mais de 200 mil inscritos, vídeos com mais de 1 milhão de visualizações e uma comunidade de fãs em todo o Brasil.
Assim surgiu a Cidade Lareli. Quatro amigos – Teri, Mika, Henry e Erick, que utilizam nomes fictícios para se conectar com seus fãs na internet, começaram a escrever seus personagens, moradores de Lareli, em 2024, e decidiram há cinco meses levar essas histórias para o público com um canal no YouTube.
Cada personagem da Cidade Lareli, incluindo seus criadores, são um tipo de fruta e refletem um pouco da personalidade dos adolescentes que escreveram essas histórias. Mika, uma fruta cereja, é a personagem de uma adolescente de 14 anos de Campo Grande. Ela conta que, durante a criação desse reino fictício, ela e os amigos utilizaram várias referências da capital de Mato Grosso do Sul.
“Nos inspiramos muito na nossa própria cidade, como a “musa” principal. O que mais gostamos de fazer é colocar referências e aparições de lugares/comidas/coisas na série, como por exemplo, o sobá, que apareceu no primeiro vídeo longo do canal”, explica Mika.
Junto à criação do canal no Youtube, os adolescentes criaram um grupo no Discord, um fórum online onde apenas jovens e adolescentes são bem-vindos, e onde a comunidade de fãs da Cidade Lareli pode também fazer parte da construção da história deste reino, contribuindo com ilustrações, participando de brincadeiras e jogos e ajudando na edição e dublagem dos vídeos do canal.
Para conduzir a entrevista com os adolescentes, este repórter do Primeira Página foi convidado a entrar no canal do Discord, onde os entrevistados criaram uma animação só para a entrevista. No momento em que cada um falava, seus “avatares” mexiam a boca e se movimentavam, dando uma sensação de imersão nesse mundo de ilustração e fantasia.
A pedido das próprias crianças e de seus responsáveis, a entrevista foi conduzida utilizando os nomes dos personagens de Lareli de cada adolescente, sem utilizar seus nomes reais para evitar a exposição.
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Cidade Lareli para além de Campo Grande
A colaboração atravessa fronteiras: dois outros fundadores da Cidade Lareli, Henry, uma fruta maracujá, e Erick, uma fruta goiaba, são os personagens de dois adolescentes de 15 anos de Itacoatiara, cidade do interior do Amazonas. Para Erick, a criação da Cidade Lareli foi a oportunidade para poder expressar a paixão pelo teatro e pela dublagem, artes com as quais tem contato desde os 6 anos de idade.
“Essa é a primeira vez que eu trabalho em um negócio que é realmente grande, que está tendo um reconhecimento grande. Faz nove anos que eu trabalho com dublagem, eu pratico atuação, teatro, e pra mim está sendo uma oportunidade incrível. Está sendo divertido e uma maneira de mostrar uma coisa que eu sempre gostei de fazer pra muita gente, que é a atuação”, conta Erick.
Já Henry, que também atua nas ilustrações do projeto, conta que não imaginava que o canal faria tanto sucesso, mas que decidiu entrar nessa para se divertir.
“Eu fui ‘vendo no que dava’, não estava esperando fama e só fiz isso tudo porque estava querendo me divertir. Mas a fama da Cidade Lareli foi tão grande que praticamente todo mundo da minha família sabe dela, sendo que eu nem contei pra eles”, conta Henry.
Clipe bate mais de 1 milhão de views
Um dos últimos vídeos do canal foi um videoclipe para uma música criada e produzida pelos adolescentes, com o título “O Que Eu Senti”. O clipe teve mais de 1 milhão de visualizações em pouco mais de duas semanas de lançamento, sendo o mais visto do canal até o momento. No Spotify, são quase 200 mil reproduções.
O videoclipe conta a história da personagem Mika e de sua irmã Akim que, na história criada pelo grupo, são duas cerejas irmãs que nasceram “siamesas”, conectadas pelo cabo da fruta. Entretanto, a criação das duas foi diferente, o que faz com que uma das irmãs busque vingança.
“Mika tem uma vida pacífica e calma. […] Já Akim, tem uma vida apática e infância ruim, tendo vários problemas com seu pai. A infância de ambas influencia elas em sua própria personalidade. Akim volta agora, pra fazer Mika sofrer o mesmo que ela sofreu durante sua vida”, explica a adolescente por trás de Mika.
Para transformar essa história em uma música, o grupo contou com o apoio de um terceiro campo-grandense. Chevz, personagem de um adolescente de 17 anos, morador da capital sul-mato-grossense, entrou em cena para fazer a produção musical de “O Que Eu Senti”.
“Quando vieram com a ideia da música, com toda a contextualização, me falaram “faz um negócio hard, pesado, tem que passar raiva”, então tudo que eu fiz foi pegar toda essa história e juntar em três minutos de música. Foi muito legal de fazer”, conta Chevz.
Chevz lembra que o sucesso do clipe foi instantâneo. “Eu já sabia que ia dar bom porque a história é boa, eu dei o meu melhor na produção musical, as artes são incríveis, eu amo os artistas e o estilo de cada um. […] Quando a gente lançou, em menos de uma hora já tinha mais de 40 mil views”.
Adolescentes fazem tudo “na mão”
O principal fundador da Cidade Lareli é um adolescente de 14 anos de Campo Grande, que responde pelo personagem Teri, uma fruta caqui. Ele é responsável pela maior parte das ilustrações dos personagens e da cidade, e conta que recebe ajuda de seu pai para administrar o canal do Youtube e a comunidade do Discord.
Os vídeos do canal e o clipe de “O Que Eu Senti” podem parecer, a princípio, complexos demais para serem feitos por pessoas tão jovens. Mas questionado sobre se o grupo utiliza inteligência artificial para criar os vídeos da Cidade Lareli, Teri é categórico: “é tudo feito a mão”.
“A base dos projetos é toda feita a mão e depois digitalizada. Nós temos artistas incríveis nos ajudando, tanto nas ilustrações quanto nas dublagens, na produção musical, temos três pessoas que trabalham só na edição, e uma comunidade toda que nos ajuda em cada projeto” explica Teri.
Chevz complementa que não concorda com o uso da IA na produção musical, ou na ilustração. “A IA pode até facilitar o seu aprendizado, mas deixar a IA fazer por você não é legal. Eu pelo menos não considero arte. Acho que quando você vai atrás de saber mais, quando você tenta, e erra, e tenta de novo, você vai aprendendo aos poucos e vai conseguindo melhorar. Qualquer um consegue com tempo e dedicação”.
Cidade Lareli é “sonho sendo realizado”
Na vida real, Teri e Mika são amigos pessoais e já estudaram juntos na mesma escola. Eles contam que não imaginavam que o projeto, que começou como uma brincadeira entre amigos, alcançaria tanto sucesso, mas que são “extremamente gratos” pela recepção do público.
“A gente é extremamente grato por como as nossas próprias histórias e dos nossos personagens, incluindo de amigos nossos, foram tão bem acolhidas, tão bem reconhecidas. E está se expandindo cada vez mais, isso é realmente um sonho sendo realizado”, conta Teri.

“Me perguntavam ‘o que você quer ser?’ na escola. E eu sempre respondi que queria poder trazer as minhas ideias de arte pro mundo, ser feliz e viver disso. E isso [a Cidade Lareli] está sendo os primeiros passos para o que a gente quer realmente fazer”, complementa o adolescente.
Teri conta que a ideia do grupo é continuar lançando novos vídeos, desenvolvendo mais a história de cada personagem da Cidade Lareli, e que se sente grato por poder exercer suas habilidades com ilustração e criação digital. “É um sonho sendo realizado e me alegra muito todos os dias que eu acordo poder trabalhar nisso”, comenta.
Projeto tem supervisão de adultos
Paulo G. Coelho, 39 anos, morador de Campo Grande, é o pai de Teri na vida real. Publicitário, ele auxilia na administração do canal do YouTube e supervisiona a comunidade no Discord, cuidando da parte burocrática do projeto.
Para Paulo, além de uma brincadeira, o projeto tem potencial de ampliar as habilidades artísticas dos jovens e fortalecer o senso de comunidade. “Estamos presenciando o surgimento de potencial futuros profissionais além de longas amizades”, comenta.

O publicitário reforça que o uso do Discord, que já foi estigmatizado como um ambiente virtual hostil e tóxico, pode na verdade ser uma ferramenta para socialização e colaboração, a exemplo do que os adolescentes da Cidade Lareli tem feito.
“O ambiente bem moderado e monitorado junto a cultura de respeito cria um ambiente bastante saudável e colaborativo. Surgem questões que são desafiadoras, porque querendo ou não, são adolescentes. Mas as experiências têm sido boas. Essa ferramenta quando bem aplicada potencializa o que essa gurizada tem de melhor para mostrar pro mundo”, afirma Paulo.