A trajetória da construtora e grupo São Benedito se confunde com a própria formação de um dos nomes mais relevantes da construção civil em Mato Grosso. Em meio a um setor historicamente sensível à economia, aos juros altos, ao custo do crédito e às oscilações da cadeia produtiva, a empresa fundada pela família Maluf conseguiu transformar tradição em escala, fortalecer sua presença regional e conquistar espaço entre as maiores construtoras do Brasil.
Em entrevista ao portal MT Econômico, o CEO Omar Maluf falou sobre o reconhecimento recente da empresa no ranking nacional da Intec e destacou que a conquista simboliza mais do que uma boa posição na lista, representando a consolidação de um trabalho feito ao longo de décadas, com participação de várias gerações da família, equipe técnica e colaboradores. A São Benedito está entre as 30 maiores construtoras do país, alcançando a 26ª posição nacional, e foi reconhecida como liderança no Centro-Oeste e em Mato Grosso pela mesma pesquisa.
Para Omar, esse resultado traduz a maturidade da companhia e a consistência de sua atuação no mercado local. “Esse prêmio resume a dedicação de muita gente ao longo de mais de quatro décadas”, afirmou, ao comentar que o reconhecimento pertence não apenas à diretoria, mas a todos que ajudaram a construir a marca. Em outro momento, ele reforçou que a conquista eleva o nível de exigência interna: “Quando a empresa chega a esse patamar, a régua sobe; o desafio agora é ser ainda melhor”.
A leitura do executivo ajuda a entender por que a São Benedito conseguiu atravessar períodos de crise sem perder relevância. Em um setor que depende de planejamento de longo prazo, disponibilidade de mão de obra, previsibilidade de custo e confiança do consumidor, manter ritmo de crescimento exige disciplina. E é justamente esse equilíbrio que a empresa diz ter construído ao longo dos anos.
Uma empresa que cresceu com o mercado, sem perder o vínculo com Mato Grosso
A história da São Benedito começa muito antes da marca ganhar a dimensão que tem hoje. A origem da família no empreendedorismo é parte importante dessa trajetória. Omar Maluf relembrou o percurso de seu avô, Samir Maluf, como um exemplo de visão de negócio e perseverança. Segundo ele, Samir chegou a Mato Grosso com poucos recursos, iniciou a vida profissional no comércio e, aos poucos, passou a investir também em imóveis e construção.
Esse apetite por oportunidades foi decisivo para a formação de uma cultura empresarial que atravessou gerações. Antes mesmo da criação formal da São Benedito, a família já acumulava experiência no setor imobiliário e em material de construção, o que proporcionou uma base técnica e comercial importante para a criação da construtora nos anos 80, por iniciativa de seu pai Marcelo Maluf e de seu tio, Marcos Maluf, com apoio direto do patriarca Samir Maluf.
“A construção sempre esteve muito presente na nossa família; isso virou vocação”, disse Omar ao resumir a herança empreendedora que moldou a companhia. Hoje, já na terceira geração, ele avalia que a continuidade do negócio é também uma forma de honrar o legado deixado por Samir Maluf. “Tenho certeza de que meu avô [in memmorian] estaria orgulhoso do que a empresa se tornou”, completou.
Esse vínculo com a origem não é apenas afetivo. Ele ajuda a explicar por que a São Benedito segue tão identificada com Mato Grosso. A empresa cresceu acompanhando o desenvolvimento urbano do estado, especialmente em Cuiabá, e consolidou uma presença forte em bairros estratégicos, além de atuar em projetos verticais, horizontais e comerciais.
Números que mostram a dimensão da operação
O porte da construtora impressiona não só pela história, mas pelos dados apresentados por Omar Maluf na entrevista. A São Benedito informou que já construiu quase 1,6 milhão de metros quadrados ao longo de sua trajetória e mantém hoje cerca de 800 mil metros quadrados ativos em obras.
Na prática, isso significa uma operação de escala rara para uma empresa de capital fechado com origem regional. Manter esse volume de produção exige estrutura, capital de giro, fornecedores confiáveis, gestão de prazos e capacidade de adaptação a um ambiente econômico volátil. Omar reconhece que o setor sofreu com problemas de oferta e custo, especialmente em relação à mão de obra e às oscilações de materiais, mas avalia que a empresa conseguiu responder com organização e planejamento.
“A construção civil vive ciclos muito duros, mas imóvel continua sendo um grande investimento”, disse o CEO, ao defender que o mercado imobiliário segue relevante mesmo diante das incertezas econômicas das últimas décadas. Ele também observou que parte dos custos não pode ser repassada integralmente ao consumidor, o que aumenta a pressão sobre as margens e exige eficiência operacional.
Ainda assim, a empresa tem conseguido avançar. De acordo com Omar, alguns lançamentos recentes tiveram forte aceitação do mercado, o que ele atribui à credibilidade construída ao longo dos anos. “A confiança do cliente pesa muito na decisão de compra”, resumiu.
Mato Grosso como motor do crescimento
Se muitas companhias brasileiras buscam expansão em outros estados, a São Benedito prefere, neste momento, aprofundar sua atuação em Mato Grosso. A estratégia faz sentido diante do potencial econômico da região, impulsionado pelo agronegócio, pela urbanização e pela demanda crescente por imóveis residenciais e comerciais.
Omar deixou claro que, por ora, a prioridade é continuar explorando as oportunidades dentro do próprio estado. Ele destacou que Mato Grosso ainda oferece amplo espaço para crescimento, especialmente em Cuiabá e em cidades do interior. A empresa já atua em Sinop, Rondonópolis, Chapada dos Guimarães e estuda novas possibilidades em regiões estratégicas, sempre com foco em produtos adequados ao perfil local.
“Mato Grosso ainda tem muito chão para crescer na construção civil”, afirmou o CEO, ao explicar por que a companhia não vê necessidade imediata de avançar para outros estados. A avaliação é pragmática: antes de abrir frentes fora da base principal, a São Benedito quer consolidar ainda mais sua liderança no mercado mato-grossense.
Essa decisão também reflete um entendimento claro sobre o papel do estado no cenário nacional. Se por muito tempo Mato Grosso foi lembrado principalmente pela força do agronegócio, a São Benedito quer mostrar que a construção civil também é um setor capaz de gerar emprego, renda, verticalização urbana e dinamismo econômico.
Banco de terrenos e potencial de R$ 7 bilhões em VGV
Entre os pontos mais relevantes da entrevista está o banco de terrenos da empresa (landbank). Omar explicou que a São Benedito possui áreas com potencial de gerar até R$ 7 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV), considerando apenas os terrenos já em carteira. O número revela a robustez do planejamento da companhia e a disposição de trabalhar com horizonte de médio e longo prazo.
Além disso, a empresa vem fazendo novas aquisições e firmando parcerias, o que pode ampliar ainda mais esse potencial. Na visão do CEO, o grupo está em posição favorável para seguir crescendo sem perder segurança operacional. “Temos uma base muito forte de projetos e ainda há muita oportunidade pela frente”, disse.
Esse banco de terrenos funciona como uma espécie de colchão estratégico para os próximos ciclos de lançamento. Em um mercado no qual o tempo entre aquisição de área, desenvolvimento do projeto e entrega final costuma ser longo, dispor de terra com vocação imobiliária é um diferencial importante. E, no caso da São Benedito, esse ativo tende a sustentar novos empreendimentos por vários anos.
Possível abertura de capital não está descartada
A entrevista também tocou em um tema que costuma despertar atenção no mercado: a possibilidade de abertura de capital na bolsa de valores. Hoje, a São Benedito é uma empresa de capital fechado, mas Omar Maluf não descartou a hipótese de, no futuro, avaliar uma operação de IPO.
Ele tratou o assunto com cautela, sem qualquer anúncio concreto, mas deixou claro que a companhia não fecha portas para movimentos estratégicos que possam fazer sentido adiante. “É algo que pode ser estudado lá na frente”, afirmou, sinalizando que a decisão dependerá do momento do negócio e das oportunidades disponíveis.
A resposta mostra uma empresa que, embora mantenha raízes familiares, já opera com mentalidade de grupo empresarial de grande porte. O discurso combina prudência e ambição, dois elementos que costumam andar juntos em negócios que pretendem crescer sem romper com sua origem.
Comercial volta ao radar
Outro ponto importante da entrevista foi a retomada do olhar para empreendimentos comerciais. Omar lembrou que a São Benedito teve papel relevante na formação de boa parte da paisagem comercial de Cuiabá e que o segmento volta a ganhar espaço no planejamento da empresa.
Segundo ele, houve um período em que o mercado comercial perdeu força, mas a demanda começou a reagir novamente. Um exemplo citado foi o trabalho realizado no Várzea Grande Shopping, onde a construtora lançou 88 salas comerciais. A adesão foi considerada muito boa, e a empresa já se prepara para lançar mais 80 unidades no mesmo empreendimento.
“O mercado de salas comerciais voltou a ficar interessante”, observou Omar, ao comentar que o produto pode voltar a aparecer com mais força no portfólio da companhia nos próximos anos. Embora ainda não haja um anúncio formal de novos projetos comerciais, o CEO deixou a porta aberta para esse tipo de desenvolvimento.
Novos lançamentos previstos para Cuiabá
A curto prazo, o foco segue concentrado na capital mato-grossense. Omar adiantou que a empresa tem uma esteira de lançamentos preparada para os próximos meses e anos, com destaque para um grande projeto previsto para o segundo semestre de 2026. Além disso, há três empreendimentos em fase de produção que devem ser lançados em Cuiabá.
Os bairros citados pelo executivo incluem Goiabeiras, Verdão e Jardim das Américas, regiões tradicionais e estratégicas da cidade, com potencial de valorização e forte apelo imobiliário. A escolha reforça a vocação da empresa para atuar em áreas consolidadas, com bom perfil de demanda e visibilidade no mercado.
“Temos uma fila de projetos bastante consistente para os próximos anos”, disse o CEO, ao indicar que a companhia está longe de desacelerar. Na prática, o cenário desenha uma São Benedito mais robusta, com lançamentos distribuídos de forma planejada e atenção especial à localização dos empreendimentos.
Uma empresa que projeta o estado para o país
Ao final da entrevista, Omar Maluf fez questão de destacar o orgulho de ver a construção civil mato-grossense ganhar mais visibilidade nacional. Para ele, a São Benedito ajuda a mostrar que o estado vai muito além do agronegócio e tem capacidade de se destacar também na construção civil, setor que exige técnica, investimento e visão de longo prazo.
“É gratificante levar Mato Grosso para o Brasil também pela construção civil”, afirmou. A declaração resume a ambição e o simbolismo da empresa neste momento: uma companhia que cresceu a partir de um legado familiar, se consolidou no mercado regional, atravessou crises, ampliou sua capacidade de execução e agora mira uma nova fase, sem abrir mão da identidade.
A São Benedito chega aos seus 43 anos de atuação em 2026, com números expressivos, base sólida de terrenos, forte presença em Mato Grosso e um horizonte de expansão que segue majoritariamente dentro do próprio estado. Em um setor marcado por desafios constantes, a empresa aposta na combinação entre tradição, inovação e confiança para continuar subindo degraus, com a responsabilidade de sustentar o reconhecimento conquistado no cenário nacional.