Foi um choque de modernidade no sertão. Em 1911, Cuiabá era uma cidade de contrastes profundos, onde a arquitetura colonial e o ritmo lento das tropas de mulas ditavam o cotidiano. Encravada no coração da América do Sul e geograficamente isolada dos grandes centros do litoral brasileiro, a capital mato-grossense dependia umbilicalmente da Bacia do Rio da Prata para qualquer contato com o mundo exterior. Foi nesse cenário de isolamento fluvial que um estrondo mecânico rompeu o silêncio das ruas de pedra: a chegada do primeiro automóvel, segundo Estevão de Mendonça, um Clement-Bayard de fabricação francesa. O evento não foi apenas uma inovação logística, mas um marco disruptivo que sinalizava o fim de uma era e o nascimento de uma nova mentalidade urbana.
O arquiteto dessa transformação foi o Dr. Joaquim Augusto da Costa Marques (1861–1939). Longe de ser um entusiasta amador, Costa Marques era um homem de Estado com uma formação intelectual de vanguarda. Bacharel em Direito pela prestigiada Faculdade do Largo de São Francisco (USP) e neto do Barão de Poconé, ele carregava o DNA da elite imperial aliado ao pragmatismo republicano, governou Mato Grosso (1911-1915) sob a égide da modernização. O cenário era de isolamento fluvial, economia extrativista e uma Cuiabá de 30 mil habitantes que tentava romper o “atraso” colonial através de símbolos tecnológicos importados da Europa. Para ele, o automóvel não era um brinquedo de luxo, mas um instrumento de soberania um posicionamento para a mudança.
Sua visão cosmopolita, moldada pelo contato com o progresso paulista e europeu, convenceu-o de que Mato Grosso precisava de uma ruptura estética e tecnológica para atrair investimentos e consolidar sua relevância no mapa do Brasil moderno.
A introdução do motor a combustão em Cuiabá foi o ápice de um projeto de “modernização conservadora”. Costa Marques utilizou o automóvel como o símbolo máximo da Belle Époque local, tentando mimetizar o refinamento de Paris e como Pereira Passos fez no Rio de Janeiro, Costa Marques fez as margens do Rio Cuiabá, já em 1913, com o caminhão Orion, ao desfilar com o veículo, como Presidente do Estado, enviava uma mensagem clara: Mato Grosso estava pronto para o século XX. Esse “marketing de Estado” visava elevar a autoestima da elite local e projetar uma imagem de eficiência administrativa, provando que a distância geográfica não era mais um impedimento para a civilização técnica.
O veículo escolhido, um Clement-Bayard, uma joia da engenharia francesa, notável pelo seu design peculiar com o radiador posicionado atrás do motor, junto ao painel corta-fogo. A logística para trazê-lo foi uma epopeia: o carro cruzou o Atlântico, subiu os rios Paraná e Paraguai e enfrentou as dificuldades de calado do Rio Cuiabá, muitas vezes viajando desmontado em caixotes. No entanto, a modernidade tinha limites sociais claros, Costa Marques, mantendo a distinção de classe da época, segundo os memorialistas, jamais assumiu o volante. A condução era tarefa do chauffeur, um técnico especializado que lidava com a sujeira da graxa e o esforço físico da partida na manivela, permitindo que o governante permanecesse como o passageiro ilustre da história.
O legado dessa iniciativa que visava a transformação da cidade e do Estado, foi imortalizado pela criação do Álbum Gráfico de Mato Grosso (1914), onde como prova inconteste do progresso, se apresenta o Estado, na direção do progresso, para mundo.
A semente do modo de vida moderno e capitalista, plantada por Costa Marques germinou rapidamente; após sua gestão, a transição para o comércio privado do automóvel e sua cadeia produtiva, ganhou força com pioneiros como os Irmãos Dorsa, que em 1918 importaram o luxuoso Fiat Tipo 52. O que começou como um ato de audácia política de um visionário do direito transformou-se na espinha dorsal da economia mato-grossense, provando que, entre 1911 e 1915, o futuro da região realmente chegou sobre quatro rodas.
O automóvel em Mato Grosso surge como um símbolo de distinção de classe antes de ser um meio de transporte de massa. A substituição da tração animal pelo motor refletia a tentativa das elites locais de superar o “atraso” colonial sem alterar as estruturas de poder latifundiárias. A chegada deste veículo a Cuiabá em 1911 representa um triunfo logístico sem precedentes. Sem conexões terrestres com o Rio de Janeiro ou São Paulo, o automóvel percorreu a Bacia do Rio da Prata, embarcado na França, transbordado em Montevidéu ou Buenos Aires para vapores de menor calado, subindo os rios Paraná e Paraguai até Corumbá, e finalmente o rio Cuiabá. Ainda tinha o grande desafio técnico, ora muitas vezes, os veículos chegavam desmontados em caixotes para facilitar o transporte fluvial e evitar danos estruturais nas manobras de carga e descarga em portos precários, e teriam de ser montados aqui.
Costa Marques utilizou o automóvel como o “ícone máximo” de seu projeto de modernização. Isso é evidenciado no Álbum Gráfico de Mato Grosso (1914), que funcionou como um catálogo de investimentos para atrair capital estrangeiro. O Álbum foi impresso em Hamburgo, na Alemanha, com o objetivo de “vender” Mato Grosso para o mundo, para provar que o estado, apesar de encravado no centro do continente, possuía os mesmos símbolos de progresso que Paris ou o Rio de Janeiro. Os registros memorias de Estevão de Mendonça e familiares de Costa Marques são um dos raros registros primários do veículo em solo cuiabano, evidenciando o modelo de 4 cilindros com o radiador característico atrás do motor.
O carro, claramente, não servia ao povo, mas à imagem do Estado. Era a materialização do progresso em uma região que ainda dependia quase exclusivamente da navegação e do muar. O automóvel conferia ao governante o “domínio sobre a distância”, um símbolo fálico de autoridade e vanguarda tecnológica perante uma população majoritariamente rural. Costa Marques era um representante da vanguarda intelectual, teve sua formação no Largo de São Francisco (USP) que o expôs ao positivismo e aos ideais republicanos de progresso material. Jornais da época, como O Debate (junho de 1912), descreviam-no como um “eminente cultor do Direito” e um “industrial de vasto descortino”, destacando sua habilidade em conduzir homens e negócios. Visto como um conciliador, mas firme em suas convicções de infraestrutura. Sua personalidade era marcada por uma obsessão pela comunicação. Ele entendia que o isolamento era a “morte” do Estado, o que explica seu entusiasmo pela modernidade, mas estrategicamente político, ao abraçar o automóvel. Seu estilo de vida representava a “Belle Époque” pantaneira. Era um homem que apreciava a sofisticação europeia, desde a escolha do Clement-Bayard francês até a impressão de documentos oficiais na Alemanha, mas mantinha os pés no chão das necessidades logísticas locais.
O “presente” de Costa Marques era de um Mato Grosso de isolado com costumes coloniais, onde o luxo importado convivia com a rusticidade do sertão. Enfim, como visionário, um homem sobre as rodas do futuro. É justo, Mato Grosso agradece e celebra o sucesso de um ideal sem volta. Tudo graças ao arquiteto da modernidade que trocou o lombo do animal pela força do motor, conectando Mato Grosso ao futuro.
Por Ricardo Laub Junior é consultor de empresas com mais de 40 anos de estrada no setor automotivo. Especialista em gestão de lojas revendedoras de veículos novos e seminovos, já passou por todas as cadeiras: vendedor, gerente de revenda, diretor e proprietário. Também é liderança do setor, como Vice-Presidente da AGENCIAUTO/MT e Vice-Presidente do SINDERV/MT. Professor e produtor de conteúdo, com formação em Administração, História, Ciências Políticas e Empreendedorismo, além de Mestrado pela UFMT e MBAs.
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