As colheitadeiras trabalham intensamente nas lavouras do norte de Mato Grosso, onde o mês de julho é marcado pela colheita do milho. O cenário de domingo à noite traz um som familiar: o ronco das máquinas, que se tornam essenciais para a agilidade da colheita, especialmente quando o clima é favorável.
Uma nova era para o milho
Historicamente, o milho colhido nas fazendas do estado enfrentava longas jornadas até as indústrias situadas a milhares de quilômetros, principalmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Muitas vezes, o grão permanecia nas propriedades, utilizado para alimentação animal ou como parte da rotação de culturas, gerando perdas significativas. André Lunardi, presidente da Coanorte, explica que “a margem do milho era negativa, então muitos produtores o plantavam apenas para beneficiar a soja”.
Hoje, essa realidade mudou. O milho agora é processado localmente, em indústrias construídas pelos próprios agricultores que o cultivam. Esse novo modelo permite transformar a commodity em produtos como etanol, óleo de milho e energia, além de oferecer uma nova perspectiva sobre o agronegócio.
O surgimento da Cooperativa Coanorte
A jornada da transformação começou em 2019, quando um grupo de produtores decidiu formar a Cooperativa Agroindustrial do Norte de Mato Grosso (Coanorte). Com a missão de fortalecer a negociação e a comercialização entre eles, a cooperativa rapidamente se tornou um ponto de apoio para agricultores de diferentes tamanhos, desde aqueles com 100 hectares até os que possuem 10 mil hectares.
Com a cooperativa firmemente estabelecida, o próximo passo era a verticalização da produção. “Já estávamos em contato com indústrias que transformavam milho em etanol, então decidimos construir nossa própria fábrica”, disse Paulo Pinto, associado da Coanorte e acionista da Evermat.
Resultados e crescimento do setor
Nos anos anteriores à chegada das usinas, o milho era cultivado apenas em situações adversas, como crises climáticas ou econômicas. Hoje, com a transformação do grão em diversos produtos, o mercado se estabilizou e os preços começaram a refletir o real valor da produção. O investimento em tecnologia e sementes, aliado ao compartilhamento de informações na cooperativa, resultou em um aumento expressivo da produtividade.
“A nossa safra deste ano foi totalmente vendida para a indústria. A logística melhorou e estamos impactando positivamente a economia local”, afirma Célio Riffel, associado da Coanorte.
Superando desafios com união
Tiago Stefanello, conselheiro da Coanorte e presidente da Evermat, destaca a importância da união entre os associados. “Decidimos agir em vez de apenas reclamar. A confiança mútua foi essencial para avançar no projeto”, afirma. Valores como seriedade e honestidade foram fundamentais para o sucesso da cooperativa, que atualmente representa os interesses de 36 famílias.
Os valores do cooperativismo
A manutenção do projeto depende fortemente dos valores que fundamentam a cooperativa, como ajuda mútua, autorresponsabilidade e solidariedade. Leo Righi, um dos associados, ressalta a importância de estar cercado de pessoas de caráter. “É aqui que quero investir meu futuro, como produtor e agora industrializador”, afirma.
O milho continua sua jornada das lavouras, mas agora com um novo destino. Ao invés de ser apenas uma commodity, ele se transforma em produtos de maior valor agregado, demonstrando que o cooperativismo pode ser um motor de mudança e desenvolvimento econômico.
Dados da Evermat
A Evermat, resultado da união de 36 famílias de produtores, representa um investimento superior a R$ 1 bilhão. Com capacidade para processar 1.250 toneladas de milho diariamente, a indústria gera energia, biocombustíveis e ingredientes para nutrição animal. Anualmente, a planta pode produzir até 207 mil m³ de etanol e 134 mil m³ de DDGS. Desde sua inauguração em maio, a Evermat já criou mais de 200 empregos diretos e cerca de 800 indiretos, estimulando o desenvolvimento da região.
Localizada em Sinop (MT), a indústria se beneficia de uma logística eficiente, com acesso facilitado a rotas estratégicas como a BR-163, essencial para o escoamento de produtos.