A poucos dias do início do plantio da safra 2026/27 de soja em Mato Grosso, os agricultores se deparam com uma preocupação alarmante: a escassez de crédito e a crescente dívida. Os desafios vão além das condições climáticas, impactando diretamente a capacidade de investimento no cultivo.
Crise financeira afeta o setor agrícola
O aumento dos custos de produção, a elevação das taxas de juros e a queda na rentabilidade têm deixado muitos produtores em uma situação financeira delicada. A combinação desses fatores resulta em dificuldades para renegociar dívidas e obter o financiamento necessário para a nova safra. Para os especialistas do setor, essa é uma das épocas mais críticas do calendário agrícola, e o acesso ao crédito se tornou um desafio quase intransponível.
Expectativas frustradas com a nova legislação
Os agricultores esperavam que o Projeto de Lei 5.122 trouxesse alívio para o endividamento rural. No entanto, as discussões no Congresso culminaram na Medida Provisória 1.376, que, apesar de apresentar avanços, ainda é insuficiente para atender toda a demanda do setor. Muitos produtores relatam que as instituições financeiras ainda não implementaram as novas regras, deixando-os sem opções às vésperas do plantio.
Impacto da rentabilidade nas decisões dos agricultores
Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja Brasil, destaca que a rentabilidade da soja em Mato Grosso despencou. O custo de produção já ultrapassa R$ 8 mil por hectare, enquanto a renda líquida caiu de R$ 4 mil para menos de R$ 1 mil por hectare em comparação à safra anterior. Essa situação se agrava no milho, onde a rentabilidade foi reduzida a menos de R$ 70 por hectare. De acordo com Beber, essa crise não é apenas resultado de fatores climáticos, mas também da desvalorização das commodities e dos altos custos de produção.
Dificuldades no acesso ao crédito
Em Tapurah, Dirceu Luiz Dezem, presidente do Sindicato Rural local, aponta que muitos agricultores não conseguem honrar suas dívidas devido à realidade financeira. As taxas de juros nas linhas de crédito disponíveis são elevadas, alcançando até 4% ao ano além da Selic, o que compromete a viabilidade da atividade agrícola. Com a falta de patrimônio suficiente para oferecer como garantia, os produtores enfrentam barreiras adicionais no acesso ao crédito.
Medida Provisória 1.376: um passo, mas não o suficiente
Embora a Medida Provisória 1.376 tenha trazido algumas melhorias, como prazos de pagamento entre oito a dez anos, com dois anos de carência para os agricultores que comprovarem perdas, Beber ressalta que a solução não abrange todos os problemas do endividamento rural. Ele enfatiza a importância de acompanhar a regulamentação pelo Conselho Monetário Nacional e as discussões no Congresso para expandir os benefícios da medida.
Insegurança entre os agricultores
A insegurança é palpável entre os produtores, como relata Régis Adriano Dezordi Porazzi, que não conseguiu renegociar sua dívida na agência bancária devido à falta de procedimentos definidos. Para ele, a incerteza aumenta em um momento em que decisões cruciais devem ser tomadas. O agricultor critica a imagem negativa do endividamento, afirmando que a crise é resultado de fatores externos, e não de má gestão.
Alternativas e regulamentações no horizonte
Enquanto aguardam soluções definitivas, muitos agricultores estão explorando as diretrizes do Manual de Crédito Rural (MCR). No entanto, alguns representantes do setor afirmam que as normas nem sempre são respeitadas por instituições financeiras. É fundamental que os produtores conheçam seus direitos e busquem renegociar suas dívidas, especialmente em tempos de dificuldades financeiras.
A advogada Dayane de Faveri Kirnev alerta que, em casos de impasse nas negociações, é possível recorrer ao Judiciário para garantir direitos já previstos na regulamentação do Banco Central. Ela também adverte sobre os riscos de migração de crédito rural para linhas pessoais, que podem resultar em juros exorbitantes.
Diante do cenário desafiador, os agricultores permanecem determinados a continuar suas atividades, mesmo com as dificuldades financeiras. A produção de soja é vital, e interromper o cultivo não é uma opção viável.