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07 de agosto de 2026 🗓️

Na era em que a IA responde tudo, pensar virou o ‘novo luxo’, alerta Martha Gabriel em Cuiabá


A inteligência artificial escreve, pesquisa, analisa dados, organiza ideias, cria imagens e entrega respostas em segundos. Mas, enquanto as máquinas passam a executar cada vez mais tarefas, uma habilidade essencialmente humana ganha valor: saber pensar, questionar e decidir. Para Martha Gabriel, uma das principais referências brasileiras em tecnologia, inovação e transformação digital, o grande desafio desta nova era já não está apenas em fazer, está em discernir.

Foi com essa provocação que a especialista conduziu a palestra “Pensamento Crítico – O superpoder na Era da IA”, nesta quinta-feira (6), durante a 6ª Jornada de Marketing Digital, promovida pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Mato Grosso (Sebrae/MT), no Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá. A programação da Jornada integrou o Conecta MT, evento realizado em parceria entre Sebrae/MT e Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Cuiabá, que reuniu atividades voltadas à inovação, negócios, tecnologia e marketing digital.

O MT Econômico acompanhou a palestra e conversou com Martha Gabriel. Em uma entrevista que ultrapassou o debate sobre ferramentas e produtividade, ela falou sobre os impactos da IA na forma como as pessoas estudam, trabalham, tomam decisões e até constroem relações.

A principal mensagem deixada por Martha é direta: quanto mais poderosa se torna a tecnologia, maior precisa ser a capacidade humana de avaliar aquilo que ela entrega.

“A IA pode tanto ampliar quanto prejudicar o seu pensamento. Depende de como você usa”, afirmou durante a conversa com o MT Econômico.

Primeiro pense. Depois use a IA – Para Martha, um dos maiores riscos está em transformar a inteligência artificial no ponto de partida para qualquer atividade intelectual.

Ao MT Econômico, ela explicou que a tecnologia pode aumentar a capacidade de uma pessoa quando entra no momento adequado do processo. O problema surge quando pensar deixa de ser responsabilidade do usuário e passa a ser delegado integralmente à máquina. “Você pode usar a IA, sim, ela te alavanca, mas pensa primeiro”, orientou.

Segundo a especialista, o nível de participação humana também deve aumentar conforme cresce a importância daquilo que está sendo decidido.

“Quanto maior o risco da decisão, mais você tem que estar envolvido nela. Quanto menor o risco da decisão, mais você pode colocar a IA para fazer, para te ajudar.”

Na prática, a recomendação muda a lógica de utilização da ferramenta. Em vez de pedir imediatamente que a inteligência artificial encontre a solução, o usuário deve primeiro compreender o problema, elaborar hipóteses, construir uma estrutura inicial de raciocínio e somente depois recorrer à tecnologia para ampliar possibilidades.

Martha resume essa relação em uma expressão que repetiu durante a palestra: a IA deve ser copiloto, e não piloto automático.

Para ela, quando o usuário pensa primeiro e utiliza a ferramenta posteriormente, a tecnologia pode ampliar conexões, acrescentar informações e abrir caminhos que talvez não fossem percebidos individualmente.

“Quando você pensa primeiro e usa a IA depois, acontece o contrário. A IA te ajuda a pensar melhor, porque você já teve um primeiro pensamento e ela complementou aquilo”, explicou ao MT Econômico.

Tela da apresentação de Martha Gabriel durante sua palestra – foto: MT Econômico

Uma das reflexões centrais da palestra foi a mudança provocada pela IA no próprio conceito de competência profissional.

Durante décadas, grande parte do esforço esteve concentrada na execução. Produzir um texto, organizar informações, pesquisar referências, analisar grandes volumes de dados ou criar conteúdos demandava tempo e conhecimento técnico. A inteligência artificial está reduzindo rapidamente parte desse esforço.

“Nosso problema antes era execução. O nosso problema agora é discernimento. Se executar ficou mais fácil, discernir ficou mais difícil”, resumiu Martha.

Para ela, a tendência é que executar fique progressivamente mais simples, justamente porque máquinas poderão assumir uma parcela maior dessas tarefas. O diferencial humano passa, então, pela capacidade de saber o que perguntar, o que aceitar, o que rejeitar, o que investigar e qual decisão tomar.

É nesse contexto que Martha define o pensamento crítico como uma espécie de “habilidade zero”: aquela necessária para utilizar bem todas as demais.

Criatividade, conhecimento tecnológico, capacidade de colaboração e resiliência continuam importantes, mas podem ser mal direcionados quando não existe discernimento. “Pensar criticamente é um novo luxo”, afirmou a especialista.

Tela da apresentação de Martha Gabriel durante sua palestra – foto: MT Econômico

O risco de perder a confiança no próprio pensamento – Na conversa com o MT Econômico, Martha chamou atenção para uma consequência menos evidente do uso indiscriminado da IA: não apenas deixar de exercitar determinadas capacidades, mas começar a acreditar que não é mais possível realizar uma tarefa sem ajuda da tecnologia.

“Se você começar a fazer isso direto, você começa a perder a habilidade de pensar e a confiança de que você consegue pensar sem a IA”, disse.

Ela compara esse processo à própria transformação provocada pelos mecanismos de busca. Antes da internet, uma pesquisa poderia exigir horas dentro de uma biblioteca e resultar em poucas referências disponíveis. Com os buscadores, o acesso à informação se multiplicou.

A tecnologia, porém, não eliminou a necessidade de saber pesquisar. Pelo contrário, tornou necessário aprender a selecionar fontes, combinar informações e avaliar resultados.

Para Martha, a IA representa um novo salto. “Se a gente usar de maneira adequada, a gente passa para um patamar que nunca teve na humanidade. Porque você tem todo o conhecimento do mundo hoje à sua disposição para você conectar.”

Por isso, segundo ela, a habilidade decisiva será justamente conseguir estabelecer relações entre informações, formular perguntas melhores e refletir sobre as respostas recebidas.

Martha Gabriel durante palestra na Jornada de Marketing Digital – Foto: MT Econômico

Outro desafio está na fronteira cada vez mais difícil de identificar entre conteúdos reais e produzidos artificialmente.

Fotos, vídeos, textos e áudios gerados por inteligência artificial alcançaram um nível de qualidade que torna insuficiente confiar apenas na percepção humana.

“O olho não consegue resolver mais”, advertiu Martha durante a entrevista.

Ela explicou ao MT Econômico que, diante de uma informação relevante, a postura deve ser de investigação contínua. Quanto maior o impacto daquela informação sobre uma decisão, maior deve ser o cuidado com sua origem e autenticidade.

“Se é para algo importante, você tem que continuar investigando, investigando, investigando, até ter certeza de que aquilo realmente é um fato.”

Isso inclui procurar a origem do conteúdo, verificar contexto, data, autoria e confrontar diferentes fontes.

É justamente aí que o pensamento crítico deixa de ser apenas uma habilidade acadêmica ou profissional e passa a funcionar como mecanismo cotidiano de proteção.

Durante a palestra, Martha chamou atenção para a diferença entre fato, interpretação e opinião. O fato pode ser confrontado com evidências. A interpretação é construída a partir dele. A opinião, por sua vez, pode nascer simplesmente de uma percepção ou sentimento.

Por isso, defendeu uma postura que resumiu em poucas palavras: “menos opinião, mais investigação”.

Perguntar melhor se torna um superpoder – Se a inteligência artificial é excepcionalmente eficiente na produção de respostas, Martha coloca sobre os seres humanos outra responsabilidade: fazer boas perguntas.

Questionar, segundo ela, é uma maneira de impedir que o pensamento se torne condicionado pelas informações disponíveis.

Mas não basta perguntar. É necessário saber como perguntar.

Martha defende o que chama de “ceticismo amável”: questionar ideias, informações e até as próprias convicções sem transformar o diálogo em confronto.

A lógica é buscar compreensão, e não simplesmente provar que o outro está errado.

Quanto mais absurda uma opinião parece, argumentou durante a palestra, maior pode ser a oportunidade de compreender aquilo que a outra pessoa está enxergando e que permanece fora do nosso próprio campo de visão.

Essa postura exige algo que Martha considera fundamental para o pensamento lúcido: humildade.

Pensar criticamente, explicou, não significa procurar argumentos apenas para confirmar aquilo em que já se acredita. Significa buscar justamente os pontos capazes de mostrar onde o próprio raciocínio pode estar equivocado.

Tela da apresentação de Martha Gabriel durante sua palestra – foto: MT Econômico

O perigo dos vieses – Outro obstáculo está dentro do próprio cérebro humano. Martha dedicou parte da palestra aos vieses cognitivos, atalhos mentais que podem distorcer avaliações e conduzir a decisões precipitadas.

Um dos mais perigosos é o viés de confirmação: a tendência de privilegiar informações que reforçam uma crença anterior e ignorar aquelas que a contradizem.

A inteligência artificial pode agravar o fenômeno quando é utilizada apenas para procurar argumentos favoráveis ao que o usuário já pensa.

Mas a ferramenta também pode seguir o caminho oposto. Uma das estratégias sugeridas por Martha é apresentar uma decisão à IA e pedir que a ferramenta identifique possíveis vieses presentes naquele raciocínio. Outro antídoto é a diversidade.

Pessoas com experiências, formações e perspectivas distintas enxergam elementos diferentes de uma mesma situação. Para Martha, essa multiplicidade reduz pontos cegos e melhora a tomada de decisão dentro das organizações.

Repertório continua essencial, talvez mais do que antes – Se a IA concentra volumes extraordinários de conhecimento, por que uma pessoa ainda precisa estudar?

Martha responde invertendo a pergunta. Justamente porque a tecnologia sabe tanto, o usuário precisa de repertório para compreender o que perguntar e avaliar o que recebe.

“Sem repertório não tem pensamento”, afirmou durante a palestra.

Conhecimento deixa de funcionar apenas como um estoque de informações guardadas na memória e passa a representar uma estrutura mental capaz de avaliar, relacionar e questionar aquilo que a IA apresenta.

Ao MT Econômico, Martha reforçou que a tecnologia pode levar o usuário a pesquisar assuntos que dificilmente investigaria sozinho. Mas, sem uma estrutura inicial de pensamento, qualquer resposta recebida também pode empurrá-lo para um caminho que nunca foi verdadeiramente analisado.

Estudar, viver experiências diferentes e conviver com pessoas de repertórios distintos aparecem, nesse cenário, como formas de ampliar essa capacidade.

O pensamento crítico defendido por Martha não termina na lógica ou na eficiência.

Depois de questionar, identificar vieses, estruturar argumentos e ampliar repertório, ainda existe um último filtro: os valores humanos.

Durante a palestra, ela destacou que uma solução pode funcionar perfeitamente sob o ponto de vista técnico e, ainda assim, produzir consequências moralmente inaceitáveis.

Por isso, a pergunta não deve ser apenas “isso funciona?”, mas também “como isso foi feito?” e “quais impactos essa escolha provoca nas pessoas?”.

É justamente nesse campo que a inteligência artificial encontra um limite fundamental: a responsabilidade não pode simplesmente ser terceirizada. A decisão final permanece humana.

Tela da apresentação de Martha Gabriel durante sua palestra – foto: MT Econômico

Tecnologia também mexe com relações – Na entrevista ao MT Econômico, Martha trouxe ainda outra preocupação: a dependência emocional da inteligência artificial.

Ferramentas conversacionais podem ser positivas para estudar, desenvolver ideias ou mesmo oferecer interação a pessoas que vivem situações de isolamento. O problema, segundo ela, surge quando a relação tecnológica começa a substituir vínculos humanos.

“O que não pode é criar dependência emocional, porque senão você não consegue mais se desenvolver sozinho.”

Para Martha, o usuário precisa compreender que, por mais natural que seja a conversa, a máquina não estabelece uma relação humana de reciprocidade.

Essa consciência integra aquilo que ela chama de maturidade no uso da inteligência artificial.

Educação e processos para pensar melhor – Diante de tanta tecnologia, pressão, excesso de informação e velocidade, como recuperar espaço para pensar?

Martha aponta dois caminhos: educar pessoas e redesenhar processos.

A educação desenvolve a capacidade de reconhecer vieses, regular emoções, questionar, estruturar raciocínios e utilizar as ferramentas de maneira consciente.

Os processos, por outro lado, ajudam a diminuir elementos que prejudicam boas decisões, como fadiga, excesso de tarefas simultâneas, pressão permanente e falta de tempo.

Ela defende, inclusive, a preservação de três recursos cada vez mais escassos na rotina contemporânea: tempo, silêncio e privacidade.

Sem espaço para processar informações, argumenta, aumenta a tendência de agir automaticamente.

E, exatamente quando quase tudo ao redor tenta acelerar as pessoas, parar para pensar se torna uma vantagem.

Debate em Mato Grosso pode gerar soluções locais – Martha Gabriel também destacou ao MT Econômico a importância de iniciativas como a Jornada de Marketing Digital levarem esse debate para diferentes regiões do país.

Para ela, encontros presenciais permitem que a tecnologia deixe de ser apenas uma discussão abstrata e passe a ser relacionada aos problemas e oportunidades de cada localidade.

“Esses eventos são fundamentais. Especialmente porque eles acontecem aqui. Põe as pessoas para conversar umas com as outras, você fomenta o que está de problema e o que está de solução na região”, afirmou.

A Jornada de Marketing Digital chegou à sexta edição em 2026 e teve como proposta aproximar os pequenos negócios das transformações do ambiente digital, com discussões envolvendo inteligência artificial, dados, tendências, autoridade e estratégias voltadas ao mercado.

Para Martha, ampliar a compreensão sobre as mudanças em curso também amplia a capacidade de encontrar respostas.

Em uma era marcada por ferramentas capazes de produzir milhares de respostas em poucos segundos, a mensagem deixada pela especialista em Cuiabá aponta justamente para aquilo que nenhuma velocidade tecnológica elimina: a responsabilidade de escolher o que fazer com elas.

A inteligência artificial pode pesquisar, sugerir, escrever, analisar e executar. Mas, para Martha Gabriel, o verdadeiro superpoder continuará pertencendo a quem souber parar, questionar e pensar.

Veja vídeo do trecho da entrevista de Martha Gabriel ao MT Econômico



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