EUIDEAL – É provável que todo estudante de Direito já tenha ouvido o mesmo alerta: “a advocacia está saturada”. A frase costuma ser sustentada pelo número crescente de profissionais, pela concorrência e pelas dificuldades enfrentadas por quem está começando. Mas será que ela retrata toda a realidade?
Em Rondônia, três trajetórias ajudam a colocar essa percepção em debate. Edirlei Souza deixou para trás 30 anos de serviço no Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia para atuar na advocacia eleitoral. Brunno Oliveira abriu mão de uma carreira de mais de uma década no Tribunal de Justiça de Rondônia para se dedicar à advocacia cível. Leonardo Lima, vindo de uma família simples, conquistou a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil aos 21 anos.
As histórias não ignoram os desafios da profissão. Ao contrário: mostram que exercer a advocacia exige coragem, planejamento, dedicação e capacidade para empreender. Também revelam que, por trás do discurso sobre a saturação do mercado, ainda existem profissionais dispostos a identificar demandas e construir o próprio espaço.
O filho do gari que conquistou a OAB aos 21 anos
A história de Leonardo Lima começou em uma família simples. Filho de Aristélio Portela Lima, que trabalhou como gari, e de Gercina Nunes, professora, ele encontrou dentro da própria casa o exemplo de que o estudo poderia mudar o rumo de uma vida.
Gercina concluiu o ensino médio por volta dos 40 anos. Depois, ingressou no ensino superior, cursou outra graduação e chegou à pós-graduação. A trajetória da mãe mostrou ao filho que a idade e as dificuldades econômicas não precisavam determinar até onde uma pessoa poderia chegar.
Leonardo Lima e o pai, Aristélio Portela Lima: à esquerda, no dia em que o jovem advogado recebeu sua carteira da OAB, aos 21 anos; à direita, anos depois, na recriação da fotografia feita pelo Eu Ideal para mostrar a trajetória construída desde aquele momento. Foto: arquivo pessoal e Eu Ideal
Leonardo LimaFilho de gari e professora, conquistou a carteira da OAB aos 21 anos e construiu sua trajetória profissional na advocacia.
“Apesar de estar dentro de uma unidade familiar simples, tive o exemplo de que o estudo é importante na vida do ser humano”, afirma Leonardo.
Na primeira imagem, o pai aparece ao lado de Leonardo no momento em que ele recebia a carteira profissional. Anos depois, já estabelecido na advocacia, Leonardo voltou a repetir a cena com Aristélio. A nova fotografia, recriada e registrada pelo Eu Ideal, preserva o mesmo gesto e revela o caminho percorrido entre o início da profissão e os dias atuais.
Leonardo reconhece que nem sempre sabia qual caminho precisaria percorrer, mas afirma que nunca deixou de acreditar que conseguiria alcançar os seus objetivos.
Eu, honestamente, sempre acreditei. Só não tinha certeza de como. Tinha um desejo e uma confiança no coração de que daria certo. Eu só tinha uma opção: fazer dar certo.Leonardo Lima
Ele compara a decisão de seguir em frente ao ato de “queimar a ponte”: eliminar a possibilidade de recuar e concentrar toda a energia na construção de um novo caminho.
Mais de uma década no TJ e uma escolha decisiva
Brunno Oliveira também precisou escolher entre a segurança do serviço público e a possibilidade de exercer a profissão para a qual havia se formado. Antes de ingressar no Direito, ainda no ensino médio, ele não sabia qual carreira seguir. Encontrou na advocacia uma atividade que, em sua avaliação, permitiria levar proteção jurídica a pessoas que enfrentavam injustiças.
“O advogado é essencial à administração da Justiça. Isso foi o que me chamou a atenção”, conta.
Depois da graduação, Brunno construiu uma carreira como servidor do Tribunal de Justiça de Rondônia, onde permaneceu por mais de dez anos. A atuação dentro do Judiciário, entretanto, era incompatível com o exercício da advocacia. Para advogar, seria necessário abandonar o cargo público e os benefícios associados à estabilidade.

Brunno Oliveira deixou uma carreira de mais de dez anos no Tribunal de Justiça de Rondônia para se dedicar à advocacia cível. Foto: Eu Ideal
Brunno OliveiraAdvogado cível e ex-servidor do Tribunal de Justiça de Rondônia, onde trabalhou por mais de dez anos.
A possibilidade de deixar uma carreira segura para ingressar em um mercado considerado concorrido despertou dúvidas e críticas. Pessoas próximas alertaram Brunno sobre os riscos da decisão.
As pessoas diziam: “Não faça isso. Você vai entrar em um mercado engessado. O que mais tem é advogado em Rondônia. Talvez você não consiga ter o que tem aqui no Tribunal de Justiça”.Brunno Oliveira
Ele admite que a mudança não aconteceu por impulso. Antes de alterar completamente o rumo da vida profissional, refletiu sobre as consequências da escolha.
“Muitas vezes bateu a dúvida. Pensei muito antes de tomar essa decisão, mas o fator diferencial que me fez mudar completamente o rumo da minha vida foi uma questão espiritual entre mim e Deus”, relata.
Para Brunno, quem pretende ingressar na advocacia precisa entender que a carreira exige mais do que a formação acadêmica. É preciso assumir responsabilidades, tomar decisões e aceitar os riscos próprios da atividade.
“Tem que ter atitude, abandonar a estabilidade, sair da zona de conforto e arriscar”, aconselha.
Trinta anos no TRE antes de realizar um sonho
Natural de Porto Velho e vindo de uma família simples, Edirlei Souza começou a trabalhar aos 15 anos, lavando carros no Ministério Público de Rondônia. Foi naquele ambiente, observando o movimento de servidores e membros da instituição, que despertou seu interesse pelo serviço público.
Mais tarde, tornou-se office-boy do Ministério Público. Naquele período, estudou com livros emprestados por promotores de Justiça e passou a se preparar para concursos.
A dedicação trouxe resultados. Edirlei afirma ter sido aprovado em 13 concursos públicos e acumulado passagens por diferentes instituições. Sua trajetória mais longa foi no Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia: foram 15 anos de serviço antes da decisão de deixar a estabilidade para atuar exclusivamente como advogado eleitoral.

Edirlei Souza durante entrevista ao Eu Ideal: depois de 30 anos no TRE-RO, ele trocou a estabilidade pela advocacia eleitoral. Foto: Eu Ideal
Edirlei SouzaAdvogado eleitoral e ex-servidor público, deixou para trás mais de 20 anos serviço públicos, dos quais 16 anos no TRE.
A mudança foi recebida com surpresa. “Alguns diziam que isso era loucura. Outros diziam que era ousadia”, recorda.
Para ele, deixar o serviço público significou trocar uma estrutura consolidada pelos riscos de uma atividade que também exige conhecimentos de gestão, relacionamento e empreendedorismo.
A estabilidade no serviço público é muito boa, mas eu tinha no coração o sonho de ser advogado. De fato, não é tão simples advogar. Advogar é empreender. Mas, quando você quer, rompe barreiras, realiza o seu sonho e é feliz com aquilo que lhe traz prazer.Edirlei Souza
Saturação ou transformação?
A percepção de que há profissionais demais para poucas oportunidades acompanha estudantes, recém-formados e até advogados experientes. A concorrência existe, assim como as dificuldades para conquistar clientes, administrar um escritório e se diferenciar no mercado.
Três trajetórias, uma pergunta
As experiências de Leonardo, Brunno e Edirlei não encerram a discussão sobre o mercado jurídico nem eliminam os obstáculos da carreira. Elas mostram, porém, outro lado do debate: os conflitos sociais continuam surgindo e, com eles, novas demandas por orientação, prevenção e defesa de direitos.
Para Leonardo, a função social da profissão impede que a advocacia seja considerada saturada de maneira absoluta.
A advocacia não está saturada para quem quer fazer a diferença em uma sociedade tão injusta.Leonardo Lima
Brunno sustenta que os problemas enfrentados diariamente pela população demonstram a existência de uma demanda que ainda não é plenamente atendida.
“Há problemas sociais e individuais por todos os lados. Cada pessoa que está sofrendo uma injustiça precisa de um advogado. Não há advogado para atender toda a demanda, todos os problemas sociais. Pelo contrário: está faltando advogado”, avalia.
Edirlei também discorda da ideia de que não exista espaço. Para ele, todas as áreas possuem grande quantidade de profissionais, mas os resultados são influenciados pela preparação, pela iniciativa e pela disposição para acompanhar as transformações do mercado.
“Em toda e qualquer área existem vários profissionais: os bons, os ruins e os acomodados. O que você precisa é não se acomodar e ser proativo. Sempre haverá uma oportunidade”, afirma.
Segundo Edirlei, essas oportunidades nem sempre aparecem de maneira evidente. É necessário observar as necessidades da sociedade e encontrar uma área que reúna identificação pessoal, capacidade técnica e possibilidade de crescimento.
A oportunidade não vem com nome, cor e hora. Ela vem com indícios de que aquilo pode ser a porta para o sucesso. A advocacia jamais estará saturada. Ela está cheia de oportunidades.Edirlei Souza
O espaço precisa ser construído
As três trajetórias não apresentam uma fórmula pronta para alcançar sucesso profissional. Também não defendem que abandonar um cargo público seja uma decisão adequada para todas as pessoas.
O que elas demonstram é que estabilidade e realização profissional nem sempre caminham juntas. Para Edirlei e Brunno, permanecer no serviço público significaria renunciar ao exercício da advocacia. Para Leonardo, seguir a profissão representou dar continuidade a uma história familiar marcada pela confiança no poder transformador da educação.
Em comum, os três precisaram enfrentar incertezas, julgamentos e barreiras sociais ou profissionais. Nenhum deles encontrou um mercado livre de concorrência. Encontraram, porém, problemas que precisavam de soluções, pessoas que necessitavam de assistência jurídica e espaço para quem estivesse disposto a se preparar.
Assista a reportagem produzida pelo site Eu Ideal:
A advocacia pode ter mudado. Pode estar mais competitiva e exigir competências que ultrapassam o conhecimento das leis. Ainda assim, as histórias de Edirlei Souza, Brunno Oliveira e Leonardo Lima indicam que quantidade de profissionais e ausência de oportunidades não são necessariamente a mesma coisa.
Talvez a pergunta, portanto, não seja apenas se existe espaço na advocacia, mas quem está preparado para construí-lo.
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Conteúdo publicado automaticamente pelo Portal Nortão News.