
O comércio de agrotóxicos irregulares não depende apenas de empresas dispostas a vender produtos fora das exigências legais. Ele também precisa de compradores. Essa é uma questão que merece atenção do agronegócio de Mato Grosso após a Operação Tesmófora, que colocou estabelecimentos do setor sob investigação em sete municípios do estado, incluindo Sorriso e Ipiranga do Norte.
A ação foi realizada na quarta-feira (28 de outubro) pela Polícia Civil e pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Foram cumpridas oito ordens judiciais de busca e apreensão em empresas suspeitas de comercializar agrotóxicos e outros insumos agrícolas em desacordo com a legislação.
O episódio levanta uma discussão importante para um dos maiores polos agrícolas do país: quem vende produtos irregulares precisa ser responsabilizado, mas o mercado também depende das escolhas de quem compra.
Não se trata de colocar todos os agricultores sob suspeita. Mato Grosso tem produtores que investem em tecnologia, assistência técnica, rastreabilidade, manejo responsável e cumprimento das normas ambientais e sanitárias. São justamente esses profissionais que precisam ser valorizados, porque a concorrência com produtos de origem duvidosa prejudica quem trabalha corretamente.
Operação alcançou municípios importantes do agronegócio
Além de Sorriso e Ipiranga do Norte, as equipes cumpriram mandados em Tabaporã, Alta Floresta, Marcelândia, Matupá e Porto dos Gaúchos. A investigação é conduzida pela Delegacia Especializada de Meio Ambiente (Dema), com apoio do Mapa.
Segundo a Polícia Civil, as diligências identificaram suspeitas de irregularidades relacionadas às exigências sanitárias, ambientais e de segurança dos defensivos comercializados pelos estabelecimentos investigados.
Durante as buscas, os agentes procuraram insumos agrícolas, registros contábeis, dados eletrônicos e outros materiais que possam ajudar a esclarecer os fatos. A investigação considera possíveis enquadramentos na legislação ambiental e na Lei nº 14.785/2023, que estabelece regras para produção, comercialização e utilização de agrotóxicos no Brasil.
Até a divulgação inicial da operação, as autoridades não haviam informado os nomes das empresas, quais produtos apresentariam problemas, o volume de materiais eventualmente apreendidos ou a ocorrência de prisões.
Portanto, os estabelecimentos são investigados por suspeitas de irregularidades, e as buscas representam uma etapa da coleta de provas. Não há, nesse momento, conclusão definitiva sobre a responsabilidade de cada alvo.
O agricultor precisa olhar além do preço
No campo, o custo dos insumos pesa diretamente no planejamento financeiro da safra. A pressão sobre as margens pode levar produtores a pesquisar fornecedores, negociar condições e procurar alternativas para reduzir despesas.
Mas existe uma diferença fundamental entre conseguir um preço competitivo e comprar um produto sem procedência comprovada.
Um defensivo agrícola precisa atender às exigências legais e apresentar informações que permitam identificar sua origem, regularidade e condições de comercialização. Quando o comprador ignora esses cuidados, pode acabar alimentando uma cadeia que coloca em risco a própria atividade agrícola.
O produto aparentemente mais barato pode esconder problemas que não aparecem no momento da negociação. Entre os riscos estão a falta de garantia sobre composição e qualidade, dificuldades para identificar o responsável pelo fornecimento e possíveis consequências ambientais e sanitárias.
Também há impactos econômicos. Um mercado abastecido por mercadorias irregulares cria concorrência desigual, prejudica empresas que cumprem as regras e pode comprometer a credibilidade da produção agrícola.
Por isso, a fiscalização não deve ser vista apenas como um problema para quem comercializa insumos. Ela também funciona como um alerta para quem compra.
Quem produz dentro da lei precisa ser valorizado
O agronegócio mato-grossense construiu sua força com investimentos em produtividade, tecnologia, pesquisa e profissionalização. A reputação da produção estadual depende de uma cadeia que envolve agricultores, cooperativas, revendas, distribuidores, transportadores e indústrias.
Quando um produto irregular entra nesse sistema, o prejuízo potencial não fica restrito ao fornecedor investigado. O uso de insumos sem garantia de procedência pode gerar consequências para a propriedade, para o ambiente e para a imagem do setor.
O produtor responsável tem interesse direto em exigir documentação, comprar de fornecedores regulares e desconfiar de ofertas que prometem vantagens muito acima das condições praticadas no mercado.
A responsabilidade, naturalmente, precisa ser individualizada. Não é correto presumir que todo comprador de uma empresa investigada tenha cometido alguma irregularidade, assim como não se pode atribuir aos agricultores a responsabilidade por eventuais práticas ilegais de fornecedores.
Mas uma coisa precisa ficar clara: a existência de um mercado depende da relação entre quem vende e quem compra. Sem demanda, a atividade comercial perde sustentação.
Fiscalização também protege quem trabalha corretamente
A Operação Tesmófora integra o programa federal Vigifronteira e contou com a participação de equipes policiais de Sorriso, Juara e Guarantã do Norte, além da Delegacia Especializada de Roubos e Furtos de Sinop, do Mapa e da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec).
A investigação busca esclarecer se os estabelecimentos comercializavam produtos em desacordo com as normas sanitárias, ambientais e de segurança. O trabalho também reforça a importância do controle sobre os insumos que chegam às propriedades rurais.
Para o agricultor, a orientação é não transformar a economia imediata em um risco para a produção. Conferir a procedência, exigir documentação fiscal, verificar a regularidade do fornecedor e buscar orientação técnica são cuidados importantes antes de adquirir defensivos agrícolas.
O preço deve fazer parte da negociação, mas não pode ser o único critério.
Mato Grosso tem uma agricultura que merece reconhecimento pela capacidade de produzir em grande escala e atender mercados exigentes. Defender essa reputação também significa rejeitar produtos de origem duvidosa e não sustentar, pela compra, um comércio que possa comprometer a segurança e a credibilidade do setor.
A mensagem da operação vai além das empresas investigadas: não existe mercado clandestino sem compradores. Valorizar o produtor que respeita as regras também exige escolhas responsáveis na hora de comprar os insumos da safra.
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