O receio de que o diesel ultrapasse R$ 10 por litro passou a fazer parte das conversas entre produtores rurais de Mato Grosso após o resultado das eleições presidenciais. Na região de Lucas do Rio Verde e Sorriso, dois dos principais polos do agronegócio estadual, a preocupação com uma possível disparada do combustível ganhou força e já interfere na percepção dos agricultores sobre os custos da próxima safra.
Durante uma visita a campo realizada na última semana, a equipe de Agro do CenárioMT conversou com produtores rurais e identificou um cenário de forte insegurança. Mais de 95% dos agricultores ouvidos informalmente manifestaram o temor de que o preço do diesel ultrapasse a marca de R$ 10 por litro depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.
O percentual representa a percepção dos produtores entrevistados pela equipe durante os contatos na região, e não uma pesquisa estatística com amostragem representativa de todo o agronegócio mato-grossense. Ainda assim, o sentimento encontrado nas conversas revela a dimensão da preocupação com o custo do combustível em um momento decisivo para o planejamento da safra 2026/27.
Para os agricultores, a possibilidade de pagar mais caro pelo diesel significa uma ameaça que vai muito além do abastecimento das máquinas. O combustível está presente na preparação do solo, no plantio, nas aplicações, na colheita e no transporte da produção. Uma alta expressiva pode atingir diferentes etapas da atividade e reduzir a margem financeira das propriedades.
O temor está associado ao cenário político e às expectativas sobre a condução da economia nos próximos meses. Entretanto, é importante separar a insegurança manifestada pelos produtores de uma previsão econômica comprovada: os dados disponíveis não permitem afirmar que o diesel necessariamente chegará a R$ 10 por litro nem que uma eventual alta será consequência direta do resultado eleitoral.
Imea confirma pressão do diesel sobre os custos do agro
Os números do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) ajudam a explicar por que o assunto preocupa tanto quem produz em Mato Grosso.
Uma análise do instituto aponta que, a cada aumento de 5% no preço do diesel, o custo operacional do frete rodoviário sobe aproximadamente 1,5% para o produtor rural. Isso ocorre porque o combustível representa cerca de 30% das despesas operacionais do transporte.
Entre janeiro e outubro de 2026, o diesel acumulou alta estimada entre 15% e 20%, conforme a análise apresentada pelo Imea. Considerando uma variação de 15%, o impacto calculado sobre o custo operacional do transporte chega a 4,5%.
A pressão também aparece dentro das propriedades. Na safra 2026/27, os gastos com diesel nas operações mecanizadas da soja em Mato Grosso estão estimados em R$ 198,59 por hectare, aumento de 23,8% em relação à temporada anterior.
O combustível passou a representar 4,59% do custeio da cultura, acima da média de 3,82% registrada nas últimas cinco safras. Segundo a série histórica considerada pelo instituto, esse é o maior percentual já observado.
O que pode acontecer com o frete em Lucas e Sorriso?
A preocupação dos agricultores da região também envolve o transporte da produção. Lucas do Rio Verde e Sorriso estão entre os municípios estratégicos para a produção de grãos em Mato Grosso, e o escoamento da soja exige uma estrutura logística de grande escala.
Com a aproximação da colheita, a procura por caminhões tende a aumentar. Nesse período, transportadores podem buscar o repasse de parte das despesas acumuladas com combustível, manutenção e operação.
O Imea observa que, apesar da elevação dos custos operacionais estimada em 4,5%, considerando a alta de 15% do diesel, os valores médios do frete no estado permaneceram equivalentes na comparação entre janeiro e outubro.
Isso significa que o aumento do combustível não é automaticamente transferido para o preço do transporte. A demanda por caminhões, a disponibilidade de veículos, a distância e a sazonalidade também influenciam os valores.
A expectativa, entretanto, é que a intensificação da colheita e do escoamento da soja ofereça condições para que parte dos aumentos acumulados seja incorporada aos fretes.
Diesel a R$ 10 é possibilidade ou apenas medo do produtor?
O preço do diesel depende de uma combinação de fatores. Entre eles estão a cotação internacional do petróleo, o câmbio, os custos de importação, a política de preços, a tributação e as condições do mercado de distribuição.
Por isso, a vitória de um candidato à Presidência não determina, isoladamente, o preço que será cobrado nos postos. Decisões econômicas do governo podem influenciar o mercado, mas também é necessário considerar fatores internacionais e a dinâmica do setor de combustíveis.
Uma alta do dólar ou do petróleo, por exemplo, pode aumentar a pressão sobre os custos. Mudanças tributárias também podem afetar o preço final. Por outro lado, não há nos dados apresentados pelo Imea uma projeção que confirme o diesel acima de R$ 10.
A marca mencionada pelos agricultores deve ser compreendida como um cenário de preocupação, e não como uma previsão oficial.
Subvenção pode ajudar a reduzir a pressão
Outro ponto importante é a subvenção de R$ 2,12 por litro, prorrogada conforme as informações apresentadas pelo Imea. O benefício contribui para conter parte da alta do combustível e reduzir a pressão sobre os custos do transporte.
A continuidade do mecanismo durante o período de colheita e escoamento é uma das preocupações do setor. Caso a subvenção deixe de vigorar justamente quando a demanda por caminhões estiver mais intensa, uma eventual alta adicional do diesel poderá ampliar os custos dos transportadores e aumentar a pressão por reajustes.
Para os agricultores de Lucas do Rio Verde, Sorriso e demais municípios produtores, o desafio será acompanhar a evolução do combustível e do frete antes de fechar as contas da próxima safra.
O levantamento de campo realizado pela equipe de Agro do CenárioMT mostra que o receio já está presente nas conversas entre produtores. Os indicadores do Imea, por sua vez, confirmam que o diesel exerce pressão crescente sobre os custos. O que ainda precisa ser acompanhado é se essa preocupação se transformará em uma nova rodada de aumentos ou se parte do temor ficará apenas no campo das expectativas.
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Conteúdo publicado automaticamente pelo Portal Nortão News.