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Sinop – MT 📍

28 de setembro de 2026 🗓️

O voo que não se julga – CircuitoMT

Na Chapada dos Guimarães, a manhã não chega: ela se revela. A luz sobe devagar pelos paredões de arenito, acende o vermelho antigo da pedra, e o cerrado inteiro respira como quem desperta de um sonho longo.

 Chego com a câmera ao pescoço e, antes de qualquer clique, reaprendo a primeira lição deste lugar, que é silenciar.

Por muitos anos, minha vida foi feita de palavras, de pesos e medidas, da difícil tarefa de decidir o que é justo. Aqui, ninguém me pede julgamentos e posicionamentos. A cachoeira cai sem pedir aprovação, o vento atravessa a vereda sem justificar o caminho, a pedra guarda milhões de anos sem apresentar razões. Fotografar tornou-se o ofício mais generoso que conheci, porque exige só uma coisa de mim: que eu olhe com inteireza. Não julgo a paisagem. Recebo-a.

E então elas surgem.

Primeiro vem o som, rouco e ancestral, como uma conversa antiga entre o céu e a rocha. Depois vem o vermelho cortando o azul, e sempre em pares. As araras não voam sozinhas. Escolhem-se para a vida inteira, e o voo delas é essa escolha em movimento: asas que quase se tocam, batidas que se combinam sem ensaio, duas silhuetas que parecem uma só ideia desenhada no ar. 

Voltam, entardecer após entardecer, aos mesmos paredões onde fazem seu ninho, como quem sabe que amar também é saber para onde voltar.

Levanto a câmera e prendo a respiração. O obturador é um pequeno amém. Algumas imagens nascem tremidas, outras chegam tarde demais, e há aquelas que nunca serão registradas por nenhuma lente e que, mesmo assim, ficam guardadas em mim, nítidas, para sempre. Escrevo sobre cinema e sei que ele é luz em movimento. Diante das araras, aprendo que a natureza é o maior cineasta: sem roteiro, sem ensaio, com uma montagem que nenhuma sala de edição igualaria.

Dizem que fotografar é um passatempo. Para mim, é terapia. Cada saída é um regresso a mim mesma, um lugar onde o ruído do mundo baixa de volume e o coração volta a ouvir o próprio compasso. O que a pressa me tirou, a paciência devolve. O que o cansaço apagou, a luz da manhã reacende. Não faço fotografias apenas para guardar o que vi; faço para lembrar quem eu sou quando estou inteira.

Talvez seja isso que o tempo novo que se aproxima queira me ensinar: quando deixa de ser prazo, o tempo vira paisagem. Passa a ter horizonte, cor e asas.

As araras seguem, par a par, riscando de vermelho o fim da tarde. Eu abaixo a câmera por um instante e entendo, em silêncio, que já fui presenteada antes mesmo de apertar o botão.

 A fotografia é um presente para a alma, e o mais bonito é que ele não se embrulha nem se compra. Só se recebe de olhos abertos.

Sempre grata a quem me apresentou e me ensina muito sobre o mágico mundo da fotografia: @amaurysantosfotografo e @marcelobborges.

@aeternalente


Fonte: [source]

Conteúdo publicado automaticamente pelo Portal Nortão News.

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