Mesmo sob a ameaça de multas de até R$ 50 milhões e com metas obrigatórias já definidas, graças a um decreto presidencial publicado em 2023, a demanda por plástico reciclado no Brasil segue em queda. A cadeia enfrenta preços em retração, margens comprimidas e dificuldades para competir com a resina virgem, mais barata.
Ao mesmo tempo, gargalos logísticos típicos de um país continental encarecem o acesso e o transporte do resíduo. “A cadeia de reciclagem no Brasil é cara para acontecer. É preciso catar os resíduos, triá-los e transportá-los por longas distâncias”, disse Maurício Jaroski, diretor da MaxiQuim, consultoria focada na indústria química.
A queda na demanda por plástico reciclado é expressiva. Segundo Luiz Henrique Hartmann, diretor-presidente da Associação Brasileira Empresarial dos Recicladores de Plástico, o setor de rPET sofreu uma queda de 54% na demanda e de 41% nos preços. A crise de competitividade foi intensificada pela queda dos preços das commodities, tornando a resina virgem muito mais barata.
Esse diferencial de preço leva as empresas a adiarem a adoção do reciclado, enquanto a cadeia enfrenta compressão de margens e ociosidade industrial. O perigo, como alertou Hartmann, é que essa postergação leve à perda de capacidade instalada, justamente quando o país mais precisará dela.
“Existe hoje um desalinhamento entre a sinalização regulatória e os estímulos econômicos concretos”, disse Hartmann. Para que a economia circular se viabilize, é fundamental que o arcabouço regulatório traga não só punições, mas também incentivos econômicos, como linhas de crédito e políticas de compras públicas.
Além disso, as dificuldades técnicas também pesam. Embora o PET seja um exemplo de reciclagem eficiente, no qual uma garrafa pode se transformar em outra, plásticos como o polietileno são mais complexos, devido à mistura de cores e tipos. Essa limitação restringe aplicações de alto desempenho. O setor, para prosperar, precisa inovar, transformando resíduos de baixo valor em produtos de maior valor agregado.
Apesar dos desafios, algumas iniciativas mostram que é possível avançar. Empresas que adotaram modelos individuais de logística reversa têm alcançado resultados concretos. Ao se aproximarem do consumidor, oferecendo conveniência e benefícios financeiros, elas garantem um fluxo mais controlado de resíduos. Esse tipo de estratégia, ao fidelizar clientes e integrar o retorno do produto com a venda de novos, tende a criar um ciclo virtuoso dentro da economia circular.
O caso da Whirlpool é um exemplo de sucesso. A empresa abandonou sistemas coletivos e implementou um modelo individual de logística reversa, oferecendo retirada gratuita de eletrodomésticos e cashback ao consumidor. Desde 2023, a Whirlpool já processou mais de 111 mil toneladas de resíduos, o equivalente a cerca de 2,5 milhões de produtos.
Além disso, a companhia investiu mais de R$ 3 milhões em parceria com a Dow e o Instituto Akatu para dar destinação a materiais complexos, como o poliuretano. “Vamos investir esse dinheiro em lixo. É exatamente isso, porque vou ganhar lá na frente”, disse Douglas Reis, diretor de assuntos regulatórios e ESG da Whirlpool.


