Alunos de Cáceres criam sorvete de mandioca após série de experimentos científicos


A criatividade e o trabalho colaborativo de estudantes dos 6º e 7º anos da Escola Estadual Dr. Leopoldo Ambrósio Filho, unidade de ensino em tempo integral de Cáceres, resultaram no desenvolvimento de um produto pouco convencional: um sorvete à base de mandioca.

Sorvete de mandioca foi criado por estudantes em Cáceres. – Foto: Romilda Rosane

O projeto foi desenvolvido por cerca de 25 alunos participantes da eletiva “Mandioca: Raiz do Brasil – História, Ciência e Sabores”, sob orientação da professora mestre Romilda Rosane Schirmann. Ao longo das atividades, os estudantes pesquisaram, testaram ingredientes e realizaram diferentes experimentos até chegar a uma receita com excelente aceitação.

Mais do que criar um novo sabor de sorvete, a iniciativa transformou a sala de aula em um espaço de investigação científica, aproximando os alunos da pesquisa e da experimentação por meio de um ingrediente presente no cotidiano de muitas famílias brasileiras.

Da tradição à inovação

A ideia surgiu dentro das disciplinas de Iniciação Científica e Eletiva, componentes curriculares que não possuem material didático pré-definido e permitem a construção de projetos alinhados à realidade dos estudantes.

A mandioca foi escolhida por reunir características que favorecem o aprendizado prático. Além de ser um alimento acessível e amplamente consumido na região, possui importância histórica, cultural e econômica para o Brasil.

A partir desse tema, os alunos passaram a investigar a origem da mandioca, seus benefícios nutricionais e as diversas formas de utilização do alimento. As pesquisas deram origem a diferentes produtos, como o MandioShake, pudim e sorvete de mandioca.

Segundo a professora Romilda, a proposta também buscou demonstrar que a pesquisa científica não está restrita aos laboratórios ou universidades e pode ser desenvolvida dentro da própria escola.

Ciência na prática

Diferentemente de uma simples atividade culinária, o projeto foi conduzido com base em etapas do método científico. Os estudantes pesquisaram referências, levantaram hipóteses, realizaram testes, analisaram resultados e aperfeiçoaram as receitas ao longo do processo.

O sorvete de mandioca nasceu a partir de uma receita encontrada na internet, feita com mandioca cozida, leite e açúcar. No entanto, os alunos decidiram investigar se o resultado final apresentaria características semelhantes às de um sorvete tradicional.

A partir daí surgiram questionamentos sobre textura, cremosidade, formação de cristais de gelo e rendimento da receita. Cada dúvida levou a novas experiências e adaptações.

Durante os testes, foram incorporados ingredientes como liga neutra e emulsificante, além de mudanças no modo de preparo. Uma das etapas consistiu em bater novamente a mistura após o início do congelamento, permitindo a incorporação de ar e garantindo maior cremosidade.

O projeto integrou a eletiva sobre mandioca e a disciplina de Iniciação Científica, permitindo que os estudantes pesquisassem aspectos históricos, culturais e econômicos do alimento antes de desenvolver as receitas.

Segundo a professora Romilda Rosane Schirmann, os alunos participaram de todas as etapas da pesquisa até chegar à versão final do sorvete. “Na produção do sorvete, os alunos passaram por todas as etapas do método científico, desde a observação e a problematização até o levantamento de hipóteses, os testes da receita e a análise dos resultados para chegar à versão final do produto”, afirmou.

A educadora destaca que o resultado foi fruto do trabalho coletivo entre alunos, coordenação pedagógica e gestão escolar. “Esse projeto só deu certo porque foi desenvolvido em equipe”, completou.

Aprendizado por meio dos erros e acertos

A primeira versão do sorvete não apresentou o resultado esperado. Foram necessárias diversas tentativas até que os estudantes alcançassem uma formulação considerada satisfatória.

Em cada experimento, os alunos registravam observações, avaliavam os resultados e propunham melhorias, compreendendo na prática como ocorre a construção do conhecimento científico.

O processo mostrou que erros e ajustes fazem parte da pesquisa e são fundamentais para o desenvolvimento de soluções mais eficientes.

Do laboratório para a venda

O projeto deve ganhar um novo capítulo no fim deste mês. O sorvete de mandioca desenvolvido pelos estudantes será comercializado durante a festa junina da Escola Estadual Dr. Leopoldo Ambrósio Filho, permitindo que os alunos acompanhem também a etapa de venda do produto.

Segundo a professora Romilda Rosane Schirmann, a proposta vai além da pesquisa científica e busca estimular o empreendedorismo entre os estudantes. Após participarem do desenvolvimento das receitas, os alunos terão acesso ao modo de preparo e poderão reproduzir os produtos em casa, inclusive como uma alternativa de geração de renda.

Pudim de mandioca também foi desenvolvido durante o projeto. – Foto: Romilda Rosane

A experiência já produziu reflexos fora da sala de aula. Inspirada pelos resultados da eletiva, a própria professora passou a produzir e comercializar, de forma independente, o pudim de mandioca desenvolvido a partir do projeto.

Escola incentiva protagonismo dos estudantes

A iniciativa está alinhada à proposta pedagógica da escola de tempo integral, que oferece disciplinas diversificadas voltadas ao desenvolvimento da autonomia e do protagonismo estudantil.

Entre elas estão Projeto de Vida e Protagonismo, componentes curriculares que incentivam os alunos a identificar oportunidades, planejar o futuro e transformar conhecimento em ações práticas.

Para a diretora da escola, Edileuza Oliveira Antoniassi, as disciplinas diversificadas fortalecem o aprendizado ao aproximar os conteúdos da realidade dos estudantes.

“As eletivas e demais disciplinas diversificadas colaboram para fortalecer a aprendizagem. Neste projeto, os alunos utilizaram um alimento presente no dia a dia deles para desenvolver um produto próprio, aprendendo de forma prática e significativa”, afirmou.

Segundo a gestora, iniciativas como essa mostram que é possível associar conhecimento científico, alimentação e criatividade dentro do ambiente escolar. “Os estudantes aprendem de forma mais atrativa, com qualidade e participação ativa em todo o processo”, completou.

Para Romilda, o sorvete de mandioca é um exemplo de como a escola pode aproximar ciência, criatividade e empreendedorismo, mostrando aos estudantes que ideias desenvolvidas em sala de aula também podem gerar oportunidades fora dela.

Disciplinas diversificadas estimulam a investigação

A experiência também evidencia os resultados das disciplinas diversificadas oferecidas pela escola de tempo integral. Componentes como Iniciação Científica e Eletiva ampliam as possibilidades de aprendizagem ao incentivar metodologias que valorizam a investigação, a criatividade e a descoberta do conhecimento por meio da prática.

Para a professora Romilda, o resultado superou as expectativas. Além da qualidade das receitas desenvolvidas, o projeto revelou o potencial dos estudantes para pesquisar, criar, testar hipóteses e inovar.

Mais do que produzir um sorvete, os alunos tiveram a oportunidade de compreender que a ciência pode estar presente em situações simples do cotidiano e que o conhecimento pode nascer da curiosidade, da observação e da vontade de descobrir.

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