Em plena safra de debates sobre clima, produtividade e segurança alimentar, Mato Grosso reuniu mais de 40 profissionais de imprensa, de vários estados, para mostrar na prática como o agronegócio vem incorporando o Programa ABC+ e as tecnologias de baixo carbono. A Press Trip organizada por Famato, SEDEC e Embrapa, realizada na Fazenda Rio Manso, em Campo Verde, evidenciou que o estado que mais produz grãos e carne bovina no país, também quer ser protagonista em sustentabilidade.
O encontro, realizado nesta terça-feira (26), teve a participação do MT Econômico e um recado claro aos jornalistas: o agro mato-grossense está tecnificado, intensivo, com forte pegada ambiental positiva – mas ainda é pouco compreendido fora da porteira. E o ABC+ em Ação surge justamente como a ponte entre ciência, política pública, produtor e sociedade.
Do desconhecimento à escala: o salto de percepção sobre o ABC+
Quando as primeiras rodadas do ABC+ em Ação começaram em Mato Grosso, por volta de 2014, a realidade era outra: em um auditório de 100 produtores, apenas dois ou três sabiam do que se tratava o programa. Hoje, após uma sequência de rodadas técnicas, dias de campo e articulação com sindicatos rurais, cooperativas e assistência técnica, o ABC+ já é parte central das conversas em várias regiões produtivas do estado.
Esse avanço não se dá apenas por teoria, mas pela demonstração de resultados econômicos dentro da porteira: pastagens recuperadas, confinamento tecnificado, integração lavoura‑pecuária‑floresta, uso crescente de bioinsumos, manejo de resíduos com biodigestores e plantio direto consolidado. O eixo central é simples de explicar ao produtor: produzir mais por hectare, com maior rentabilidade, menor risco climático e menor emissão por unidade de produto.
Mato Grosso: líder em produção e em preservação
Linacis Lisboa, secretária adjunta de Agronegócios da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sedec-MT), apresentou um retrato que ajuda a dimensionar a relevância de Mato Grosso no debate climático e produtivo. O estado responde por 32% dos grãos do Brasil, segundo pesquisa da Conab 24/25, é líder em produção de soja, milho, algodão e gergelim, possui o maior rebanho bovino do país (mais de 32 milhões de cabeças) e maior produtor de etanol de milho, ocupando a segunda colocação quando comparado à produção geral de etanol originada da cana-de-açúcar.
Tudo isso, porém, ocupa cerca de 40% do território estadual, pois 61,14% da área permanece preservada – e cerca de 40% desse total está dentro de propriedades rurais. Em números de uso da terra, aproximadamente 22% da área é de pastagens plantadas, 13% é agricultura e perto de 1% corresponde às zonas urbanas. O restante são áreas de conservação, terras indígenas e vegetação nativa.
Na lógica do ABC+, esse dado é estratégico: significa que há grande espaço para intensificar a produção sobre áreas já abertas – especialmente pastagens – sem necessidade de novos desmatamentos. A recuperação de campos degradados e a conversão planejada de pasto em lavoura, com posterior retorno da pecuária em sistemas integrados, aparecem como o caminho mais eficiente para crescer em volume produzindo mais carbono estocado no solo e menos emissões.
ABC+ em Mato Grosso: metas, governança e crédito verde
O Plano de Agropecuária de Baixo Carbono – ABC+ – está em sua segunda fase (2020–2030), agora incorporando explicitamente a adaptação às mudanças climáticas. No campo, isso se traduz em tecnologias que aliem eficiência produtiva, resiliência climática e redução de emissões.
Em Mato Grosso, um grupo gestor reúne mais de 40 instituições – SEDEC, Sema, AGER, bancos, cooperativas de crédito, Famato, Aprosoja, entidades do algodão e da pecuária, universidades, Embrapa, fundações de pesquisa e organizações da sociedade civil – para definir metas, acompanhar indicadores e ajustar as políticas de incentivo.
Pelo peso do agro no estado, Mato Grosso assumiu voluntariamente cerca de 17% das metas nacionais do ABC+. Em área, isso significa algo em torno de 12,5 milhões de hectares adicionais, equivalente praticamente a uma safra inteira de soja do estado, a serem enquadrados em tecnologias de baixo carbono. Entre as metas específicas destacam-se:
- 3,82 milhões de hectares em recuperação de pastagens degradadas;
- 3,3 milhões de hectares em plantio direto de grãos;
- 1,3 milhão de hectares em integração lavoura‑pecuária;
- 285 mil hectares adicionais de florestas plantadas;
- 750 mil cabeças em terminação intensiva de bovinos;
- 3,3 milhões de hectares de bioinsumos.
Os resultados parciais apresentados na Press Trip mostram que o estado está bem adiantado em algumas frentes. A utilização de bioinsumos já cumpriu cerca de 83% da meta, a recuperação de pastagens alcançou 75%, o plantio direto de grãos, 64,5%. A terminação intensiva de bovinos foi além: Mato Grosso atingiu, sozinho, a meta nacional prevista para essa tecnologia.
Para viabilizar essa transição, o crédito rural tem sido reorientado. Linhas como Renova Agro, FCO Verde e um novo programa da agência de fomento estadual, voltado a pequenos produtores, direcionam recursos a investimentos em pastagens, ILPF, irrigação, biodigestores, florestas plantadas e adequação ambiental.
Tecnologias de baixo carbono: da teoria à prática na Fazenda Rio Manso
A escolha da Fazenda Rio Manso como campo-escola do ABC+ em Ação não foi por acaso. A propriedade, com cerca de 2.962 hectares, sintetiza a lógica da intensificação sustentável que o plano quer escalar pelo estado.
Na agricultura, a fazenda cultiva atualmente cerca de 1.100 hectares – com previsão de avançar para 1.300 hectares de soja e 1.000 hectares de milho na próxima safra – e opera com plantio direto, uso intensivo de análise de solo, maquinário atualizado e monitoramento de produtividade por mapas de colheita. Em 2015, primeiro ano de lavoura, colhia 55 sacas de soja por hectare; na última safra atingiu 73 sacas/ha. O milho passou de 98 sacas/ha no início para patamares superiores a 140 sacas/ha, dependendo da área.
Na pecuária, a fazenda trabalha com cria, recria e engorda em aproximadamente 1.030 hectares de pastagens, usando suplementação proteica e terminação em confinamento. O resultado prático das tecnologias: animais abatidos entre 18 e 20 meses, com 20 arrobas, contra um padrão antigo de 4 a 5 anos para atingir peso semelhante.
Do ponto de vista ambiental, a fazenda conserva mais de 630 hectares em áreas de preservação permanente e vegetação nativa, todas cercadas, dispõe de terraços e curvas de nível em toda a área agrícola, faz uso do esterco do confinamento nos pastos, mantém devolução organizada de embalagens de agroquímicos, coleta seletiva de resíduos e investe em bem-estar social dos funcionários, com moradia, energia, água, internet e bônus atrelados à produtividade.
Além disso, a propriedade utiliza a integração lavoura‑pecuária como ferramenta estratégica: em vez de tratar a lavoura e a pecuária como ilhas, alterna uso da área entre soja, milho e capim, recuperando pastagens com alta cobertura de solo, ganho de matéria orgânica e produtividade crescente tanto no grão quanto na arroba de boi.
Carbono, emissões e “pecuária como salvação da lavoura”
Um dos pontos altos da Press Trip foi a palestra do Dr Flávio Wruck, chefe adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa, que apresentou dados sobre emissões de gases de efeito estufa na agropecuária, destacando o papel da pecuária brasileira no contexto global. Embora o Brasil seja um dos maiores emissores quando se inclui o desmatamento, os dados mostram claramente que quase metade dessas emissões vêm da conversão de florestas e não do manejo produtivo em si.
Dentro do setor agropecuário, o maior componente ainda é o metano entérico dos bovinos, mas a adoção de sistemas intensivos, com pastagens bem manejadas, confinamento e integração lavoura‑pecuária, reduz substancialmente a emissão por quilo de carne produzida. Nos últimos anos, segundo a Embrapa, a emissão por animal caiu cerca de 8%, mesmo com aumento do rebanho, graças ao ganho de produtividade, melhor nutrição e manejo de pastagens.
Experimentos de longa duração com integração lavoura‑pecuária e pastagem adubada mostram estoques de carbono no solo iguais ou superiores ao da vegetação nativa de cerrado em condições arenosas – com a vantagem de gerar renda e alimentos. Em sistemas bem manejados, há ganho simultâneo de produção e de carbono no solo, reforçando a ideia de que intensificação sustentável é, ao mesmo tempo, negócio e serviço ambiental.
O pesquisador resumiu essa lógica com uma frase que marcou o grupo: a pecuária é a salvação da lavoura – justamente porque, em sistemas integrados, o gado ajuda a construir solos mais férteis, estruturados e ricos em matéria orgânica, condição essencial para que a lavoura se mantenha produtiva e resiliente às mudanças no regime de chuvas.
Mato Grosso na macroeconomia: divisas, empregos e logística
A apresentação do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária – IMEA realizada pelo coordenador de Inteligência de Mercado, Rodrigo Silva, complementou a visão ambiental com números econômicos. O estado responde por uma fatia expressiva do produto interno brasileiro: o PIB mato-grossense saltou de pouco mais de R$ 20 bilhões no início dos anos 2000 para algo acima de R$ 270 bilhões em pouco mais de duas décadas, tornando-se o estado que mais cresceu em termos percentuais no período.
Na balança comercial, Mato Grosso é decisivo. O saldo positivo do estado representa mais de 40% do saldo superavitário do Brasil, garantindo entrada de divisas, sustentando o câmbio e ajudando a equilibrar as contas externas. E quem puxa esse desempenho é o agronegócio: a linha verde da balança estadual, referente ao agro, é amplamente superavitária, enquanto outros setores aparecem neutros ou deficitários.
No mercado de trabalho, o agro também é protagonista. Mato Grosso possui hoje a menor taxa de desocupação do país, em torno de 2,2%, e quase dobrou o número de empregos formais nos últimos 12 anos. A expansão de lavouras e agroindústrias, em especial esmagadoras de soja e usinas de etanol de milho, tem gerado demanda por mão de obra qualificada – de operadores de máquinas a engenheiros, veterinários, agrônomos, técnicos e profissionais de logística.
Ao mesmo tempo, o estado ainda convive com gargalos logísticos e de infraestrutura – rodovias sobrecarregadas, necessidade de ampliação ferroviária e dependência de portos distantes. Projetos como a Ferrogrão e a consolidação do Arco Norte são vistos como peças-chave para reduzir custo de frete, aumentar competitividade e diminuir a pegada de carbono do transporte.
Benefícios relatados pelo proprietário da Fazenda Rio Manso
“Entrar nesse programa ABC é uma coisa que é natural, a gente vai vendo o que que a gente precisa fazer. Esse sistema de plantio direto, o sistema de integração lavoura‑pecuária, coisa que vai acontecendo… Como a gente tem lavoura e pecuária na fazenda, a gente vai fazendo a reforma de pastagem usando a agricultura para isso”, disse o proprietário da fazenda Rio Manso, Rodrigo Minuzzi.
Minuzzi acrescentou. “A gente percebeu uma grande melhoria: diminui o custo de fazer uma reforma de pasto — só gradear e plantar capim de novo. A gente planta soja, consegue colocar mais adubo, e normalmente o custo da soja no primeiro ano em cima do pasto não fecha a conta, mas o que sobra de adubo vale a pena. Por isso a gente acaba fazendo dois anos seguidos de soja e milho; daí a conta fecha e sobra o pasto bem formado, limpo de plantas daninhas”.
O maior desafio relatado pelo proprietário da fazenda foi mudar da agricultura convencional para o plantio direto. “As pessoas tinham resistência, mas com a vinda de novos herbicidas e a necessidade, foi ficando natural”, comenta.
Na pecuária Rodrigo Minuzzi identificou melhorias a serem feitas. “A gente precisa intensificar cada vez mais: melhorar a pastagem, adubar, e provavelmente trocar algumas variedades de capim no futuro para aumentar a lotação por hectare. Hoje a gente está intensificando, aumentando a área de lavoura, diminuindo de pastagem, e mantendo a mesma quantidade de gado”, finaliza.
ABC+ em Ação: comunicação, confiança e escala
Ao longo do evento, produtores, técnicos e autoridades repetiram um ponto em comum: da porteira para dentro, Mato Grosso é referência mundial em eficiência; da porteira para fora, ainda há desconhecimento, desinformação e narrativas distorcidas sobre o agro brasileiro.
Nesse contexto, o ABC+ em Ação vai muito além de ser um roteiro técnico. É uma estratégia de comunicação e transparência. Ao abrir fazendas, mostrar números de produtividade, de preservação, de carbono no solo, de renda e de empregos, o programa busca qualificar o debate público e aproximar quem produz de quem consome – seja no Brasil, seja em outros países.
Para o agronegócio mato‑grossense, trata‑se de uma oportunidade dupla: consolidar sua posição como principal motor de geração de divisas do país e, ao mesmo tempo, mostrar que a expansão da produção está ocorrendo, majoritariamente, sobre áreas já abertas e com tecnologias que sequestram carbono, reduzem emissões e aumentam a resiliência climática.
Para a sociedade, o ganho está na segurança alimentar, na oferta de energia renovável (etanol de milho, biodiesel), na geração de empregos formais e na manutenção de uma das maiores áreas preservadas do planeta sob responsabilidade direta de produtores rurais.
Ao final da Press Trip na Fazenda Rio Manso, a mensagem que fica é a de um Mato Grosso que se vê – e quer ser visto – não como problema, mas como parte central da solução para produzir mais com menos impacto. O ABC+ em Ação, ao alinhar crédito, ciência, gestão de riscos e comunicação, aparece como o instrumento para que essa visão saia do palco dos eventos e se consolide no dia a dia de milhares de propriedades rurais pelo estado.
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