Entre a cabine de um trator altamente automatizado e o trabalho diário nas fazendas de Mato Grosso, um grande desafio pode limitar o avanço das atividades rurais no estado de maior produção agropecuária do país: a dificuldade para encontrar trabalhadores. A expansão das áreas produtivas, o uso crescente de máquinas e a necessidade de elevar a produtividade convivem com uma realidade apontada por produtores de diferentes regiões do Estado sobre a falta de profissionais para ocupar funções operacionais, técnicas e de gestão.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT), mostra que 62,62% dos produtores relatam alta dificuldade para contratar novos funcionários. O resultado foi apresentado na terça-feira (14), durante o Fórum dos Setores Produtivos, realizado na programação da 58ª Expoagro, em Cuiabá.
O levantamento ouviu 415 produtores rurais de 87 municípios mato-grossenses. Os resultados estaduais têm nível de confiança de 95% e margem de erro de 5%. Ao todo, foram contabilizados 6.814 trabalhadores fixos nas propriedades participantes, com média informada de seis funcionários agrícolas por estabelecimento.
O estudo também mostra que a contratação formal é predominante no campo. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foi citada como modalidade de contratação de trabalhadores fixos por 96,12% dos entrevistados. Além da remuneração, os produtores oferecem benefícios para atrair e manter os profissionais. A alimentação fornecida pela fazenda aparece em 85,19% das respostas, enquanto 84,95% dos produtores afirmam disponibilizar moradia ou alojamento.
Transporte, treinamentos, vale-alimentação ou vale-refeição, plano de saúde e acesso à internet também estão entre os benefícios mencionados na pesquisa. Os dados indicam que a disputa por trabalhadores não se resume à oferta de vagas, mas envolve a capacidade das propriedades de apresentar condições de permanência e perspectivas de crescimento profissional.
Tecnologia muda o perfil das oportunidades
Em entrevista concedida ao MT Econômico, o superintendente do Imea/Famato, Cleiton Gauer, afirmou que a dificuldade de contratação já é percebida tanto na agricultura quanto na pecuária. “Mais de 60% dos produtores têm alta dificuldade de conseguir contratar nova mão de obra para a propriedade”, destacou.
Segundo Gauer, o avanço tecnológico não é, diretamente, a causa do afastamento dos trabalhadores do campo. Para ele, o problema está relacionado principalmente ao processo histórico de migração da população rural para as cidades e à imagem construída ao longo do tempo de que a agricultura e a pecuária seriam atividades excessivamente pesadas, pouco tecnológicas e com poucas oportunidades de carreira.
Na avaliação do superintendente, a modernização das propriedades pode funcionar justamente no sentido contrário. Em vez de afastar profissionais, a tecnologia cria novas possibilidades de trabalho e exige conhecimentos específicos. Ele citou como exemplo o operador responsável por conduzir um conjunto formado por trator e plantadeira. O equipamento pode custar aproximadamente R$ 1,5 milhão e reúne recursos tecnológicos semelhantes, ou até mais avançados, do que aqueles encontrados em um automóvel.
Esse profissional não atua apenas com esforço físico. Ele precisa monitorar sistemas, acompanhar o desempenho da máquina, identificar falhas e garantir que a operação ocorra dentro dos parâmetros de produtividade. Na cotonicultura, Gauer mencionou colheitadeiras avaliadas em mais de R$ 7 milhões, cujo funcionamento depende de operadores preparados para lidar com equipamentos complexos e de alto valor.
“A tecnologia vem no caminho contrário para mostrar que é uma possibilidade de mercado”, afirmou o superintendente. Na visão dele, apresentar o campo como um ambiente moderno e profissional pode ajudar a atrair pessoas que vivem nas cidades e não consideravam o agronegócio uma alternativa de carreira.
Operadores e técnicos estão entre os mais procurados
A demanda dos produtores envolve diferentes níveis de formação. Os operadores de máquinas agrícolas aparecem entre os profissionais mais procurados, segundo relato de 63,77% dos produtores, e na sequência os trabalhadores polivalentes, capazes de atuar na operação de equipamentos menores, na organização da propriedade e em atividades de apoio.
Também há procura por profissionais voltados à gestão, técnicos de campo e agrônomos. Esses trabalhadores são necessários para auxiliar no planejamento das operações, no acompanhamento das lavouras e na busca por aumento de produtividade. A transformação do perfil das fazendas ampliou a necessidade de pessoas capazes de interpretar informações, utilizar ferramentas digitais e tomar decisões com base em indicadores técnicos.
A remuneração varia conforme a experiência, a qualificação e o nível de responsabilidade. De acordo com Cleiton Gauer, operadores de máquinas podem começar recebendo cerca de R$ 3 mil, enquanto profissionais mais experientes, responsáveis por funções complexas, podem alcançar salários superiores a R$ 15 mil.
O pacote oferecido pelas propriedades também pode incluir remuneração variável vinculada ao desempenho, à produtividade ou aos resultados alcançados durante a colheita. Transporte, alimentação e moradia são outros mecanismos utilizados para fixar os trabalhadores, principalmente em fazendas localizadas longe dos centros urbanos.
Em alguns casos, a estrutura permite que o funcionário leve a família para a propriedade. O cônjuge pode atuar em atividades administrativas ou em outras funções do próprio empreendimento, ampliando a renda familiar e favorecendo a permanência no campo. Para Gauer, a redução da necessidade de força física em algumas operações também abre espaço para uma participação maior de mulheres e de outros integrantes da família.
Sucessão geracional amplia o desafio
A questão geracional também influencia a disponibilidade de trabalhadores. Durante décadas, muitos jovens foram incentivados pelos próprios pais a deixar o campo e buscar profissões nas cidades. “O seu objetivo é estudar, ser médico, ser advogado”, exemplificou Gauer ao descrever a orientação recebida por parte de uma geração que acabou se afastando das atividades rurais.
Esse processo contribuiu para enfraquecer a sucessão e reduziu o número de pessoas familiarizadas com a rotina das propriedades. O movimento, entretanto, começa a mudar. Com a maior presença de tecnologia, a valorização da formação técnica e o crescimento do agronegócio, novas gerações passaram a enxergar oportunidades em áreas como agronomia, medicina veterinária, gestão e operação de máquinas.
Gauer avalia que Mato Grosso não caminha necessariamente para um apagão generalizado de profissionais. O risco está concentrado em funções específicas, especialmente aquelas ligadas à operação, ao apoio e às tarefas básicas das propriedades. “A gente pode falar em um desafio, mas não em um apagão”, resumiu.
Entre os exemplos está a função de vaqueiro, cuja oferta de trabalhadores vem diminuindo diante das mudanças nos sistemas de produção e da incorporação de tecnologias na pecuária. Auxiliares, encarregados e trabalhadores polivalentes também estão entre os postos mais difíceis de preencher.
A avaliação é compartilhada pelo Senar-MT. Em entrevista ao MT Econômico, o gerente de Educação Formal da instituição, Pedro Souza, afirmou que há demanda tanto por profissionais ligados à mecanização quanto por trabalhadores da bovinocultura. “Uma das áreas que tem maior demanda aqui no nosso Estado é a operação e manutenção de máquinas agrícolas”, disse. Ele também citou a operação de drones, a agricultura de precisão e a necessidade de vaqueiros capacitados.
Capacitação tenta aproximar trabalhadores do campo
A formação profissional aparece como uma das principais respostas para reduzir a distância entre as vagas disponíveis e os trabalhadores interessados. Atualmente, o Senar-MT possui 278 cursos em seu portfólio, com conteúdos voltados às diferentes necessidades do setor produtivo.
Entre janeiro e junho de 2026, a instituição realizou 7.129 ações, entre cursos, palestras e aulas de cursos técnicos, alcançando aproximadamente 67,5 mil participantes. Na área de mecanização agrícola, diretamente relacionada à principal demanda apontada pela pesquisa, foram realizados 2.034 cursos no primeiro semestre, com 11.126 pessoas capacitadas em 55.224 horas de treinamento.

Para o segundo semestre, a expectativa é superar esses números. Conforme explicou Pedro Souza, o período de entressafra é aproveitado para capacitar trabalhadores que já atuam no setor e também pessoas que pretendem ingressar no agronegócio. Com as máquinas paradas ou menos exigidas em determinadas etapas do calendário agrícola, as propriedades têm melhores condições para liberar funcionários para os treinamentos.
O portfólio do Senar-MT também é atualizado de acordo com as novas demandas. Souza contou que a instituição havia realizado um projeto-piloto de um curso sobre boas práticas no preparo de calda de defensivos agrícolas. A formação busca melhorar a aplicação dos produtos, reduzir desperdícios e evitar impactos ambientais, considerando o alto investimento feito pelos produtores na compra de insumos.
Os cursos mais procurados incluem operação e manutenção de máquinas, drones, agricultura de precisão e capacitações ligadas à pecuária, como a vacinação contra a brucelose. “Tem muita oportunidade no campo”, afirmou Souza, ao destacar que o objetivo da entidade é preparar pessoas para ocupar essas vagas.
As capacitações oferecidas pelo Senar-MT são gratuitas. Para participar, o interessado deve procurar o sindicato rural do município ou a unidade mais próxima e consultar a agenda de treinamentos. Muitos sindicatos também utilizam grupos de WhatsApp para divulgar as turmas. A programação pode ser consultada no site do Senar.
Cursos chegam a municípios distantes
A interiorização das ações é considerada essencial em um Estado de dimensões extensas como Mato Grosso. De acordo com Cleiton Gauer, o Senar-MT mantém parcerias com sindicatos rurais que alcançam 96 municípios. Nas localidades onde não há uma estrutura permanente, são utilizadas extensões de base para atender cidades vizinhas.
Em algumas regiões, um sindicato consegue atender oito ou nove municípios do entorno. Os cursos também podem ser realizados de forma itinerante, em comunidades, glebas e nas próprias fazendas. Dessa maneira, a capacitação chega a trabalhadores que vivem longe dos grandes centros e que teriam dificuldade para se deslocar até um polo de formação.
Para Gauer, levar o ensino até a ponta é uma forma de ampliar o número de candidatos e apresentar o meio rural como uma possibilidade concreta para moradores das cidades. A estratégia também contribui para que os próprios produtores compreendam a importância de organizar as funções, criar planos de desenvolvimento e preparar suas equipes.
Jornada de trabalho exige adaptação
Outro tema que passou a preocupar os produtores é a discussão sobre uma eventual mudança da escala 6 por 1 para 5 por 2. Gauer explicou que o levantamento do Imea e do Senar-MT foi realizado antes de o assunto ganhar força e, por isso, não avaliou diretamente os efeitos da alteração.
Ainda assim, o tema é acompanhado pelo setor porque as atividades rurais seguem calendários próprios. Plantio, manejo e colheita podem exigir maior disponibilidade de trabalhadores em determinados períodos, o que demandaria reorganização das equipes e dos turnos.
Na avaliação do superintendente do Imea, o desafio não está apenas em mudar a escala, mas em definir como essa transição será aplicada nas diferentes atividades. “Não dá para simplesmente fechar uma escala 5 por 2 para todo mundo sem levar em consideração as características inerentes da atividade”, afirmou.
As entrevistas realizadas pelo MT Econômico com Cleiton Gauer e Pedro Souza, somadas aos dados da pesquisa, mostram que a falta de mão de obra no campo é resultado de vários fatores: mudanças demográficas, percepção cultural, sucessão geracional, exigência de qualificação e necessidade de melhorar as condições de permanência. A tecnologia, nesse cenário, não elimina o trabalho humano. Ela transforma as funções e aumenta o valor de profissionais preparados para operar, monitorar e administrar o agronegócio de Mato Grosso.
Veja o estudo completo abaixo
Entre no GRUPO DE WHATSAPP e acompanhe mais notícias relevantes sobre Agronegócio e Indústria