A crescente taxa de crédito problemático no agronegócio de Mato Grosso levanta sérias preocupações sobre o financiamento da próxima safra. Embora a inadimplência oficial no crédito rural seja de aproximadamente 5%, a inclusão de operações renegociadas e ativos de maior risco eleva esse número para cerca de 18%, indicando um cenário alarmante para os produtores.
Desafios financeiros enfrentados pelos produtores
Os agricultores têm enfrentado margens de lucro cada vez mais apertadas, resultado de custos elevados e preços em queda para produtos como soja e milho. Essa combinação tem pressionado a rentabilidade e dificultado o cumprimento de compromissos financeiros. O agricultor Régis Adriano Desordi Porazzi, de Tapurah, que cultivou 800 hectares de milho nesta safra, destaca a perda significativa de lucro, afirmando que os custos de produção se tornaram insustentáveis.
Situação crítica e falta de estímulo para investimento
Porazzi conta que, em sua atividade, os gastos são de R$ 90 por saca de soja, com uma margem de lucro de apenas R$ 5 a R$ 6. Para ele, o problema se intensificou nos últimos três anos, reduzindo o incentivo para novos investimentos. Ele compara a situação a uma “escravidão legalizada”, onde o trabalho não resulta em lucros reais.
O panorama do crédito rural em Mato Grosso
De acordo com a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), a inadimplência total do crédito rural no Estado é de aproximadamente R$ 5,25 bilhões. Contudo, esse número pode não refletir a realidade completa do endividamento dos produtores, uma vez que muitos recorrem a financiamentos fora do sistema oficial. Segundo Cleiton Gauer, da Famato, essa situação pode indicar um volume real de operações problemáticas ainda maior do que o registrado.
Crédito problemático em ascensão
O Banco Central aponta que a inadimplência do crédito rural no Brasil está em 7,4%. Embora Mato Grosso esteja abaixo da média nacional, o Estado se destaca pela diversidade de modalidades de financiamento utilizadas. Gauer alerta para o crescente percentual de crédito problemático, que inclui operações inadimplentes e renegociadas, afirmando que essa situação impactará a capacidade dos produtores de honrar seus compromissos nas próximas safras.
Margens sob pressão e decisões difíceis
Agricultores têm se visto forçados a vender sua produção abaixo do custo para manter as operações. Dirceu Luiz Dezem, presidente do Sindicato Rural de Tapurah, observa que muitos produtores, sem capital suficiente, priorizam despesas imediatas, postergando o pagamento de dívidas. Essa realidade ameaça a continuidade de muitos agricultores na atividade, com a possibilidade de uma significativa redução no número de produtores.
Preocupações com a segurança alimentar
Régis Porazzi expressa uma preocupação alarmante: a possibilidade de uma crise alimentar caso a situação econômica não melhore. Ele vê o cenário atual como uma catástrofe para o agronegócio, com riscos reais de que a sociedade enfrente escassez de alimentos.
Demandas por ações governamentais
Em resposta ao agravamento da situação, entidades do setor agropecuário estão em diálogo com o governo federal e o Congresso em busca de soluções para garantir recursos para a próxima safra. Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja Brasil e Mato Grosso, destaca a necessidade de medidas emergenciais, como a suspensão de cobranças de dívidas rurais e a criação de linhas de crédito suplementares.
Fortalecimento do seguro rural
Costa Beber também defende a ampliação do seguro rural, que atualmente é considerado insuficiente para proteger os produtores em momentos de crise. Ele ressalta que a combinação de juros elevados e a limitação do seguro encarecem ainda mais os custos de produção, tornando o acesso ao crédito cada vez mais difícil.
Diante desse panorama de endividamento crescente e margens estreitas, a viabilidade econômica da próxima safra em Mato Grosso está em risco, reforçando a urgência de medidas que assegurem a capacidade de investimento dos agricultores no futuro.