Economia brasileira entre juros, gastos e baixo crescimento


Foto: Canal Rural Mato Grosso

A combinação entre juros elevados, política fiscal expansionista e um cenário internacional de incertezas continua impondo desafios à economia brasileira. Embora o país mantenha indicadores positivos de emprego, o ritmo de crescimento segue abaixo de outras economias da América Latina e o custo do crédito ainda restringe investimentos, tanto no setor produtivo quanto no consumo.

Na avaliação do pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), José Eustáquio, parte desse cenário está relacionada às mudanças na condução da política fiscal adotadas nos últimos anos. Segundo ele, o aumento das despesas públicas acima da arrecadação ampliou as dificuldades para reduzir a taxa básica de juros.

Após atingir 2% durante a pandemia, a Selic voltou a subir como resposta ao avanço da inflação provocado pela desorganização das cadeias globais de suprimentos. Mesmo com a recente redução para 14,25%, o pesquisador considera que o mercado ainda enxerga com cautela os próximos movimentos da política monetária.

“Mesmo que eu tenha tido essa redução moderada agora, as expectativas futuras aumentaram”, afirma ao programa Direto ao Ponto ao comentar as projeções para os juros nos próximos anos.

Embora a economia brasileira continue crescendo, o desempenho ainda é considerado modesto quando comparado ao de países vizinhos. José Eustáquio destaca que o Brasil registra expansão próxima de 1,8%, enquanto economias como a do Paraguai avançam em torno de 4,5%.

Para ele, os indicadores do mercado de trabalho também precisam ser analisados com cautela. Apesar da taxa de desemprego estar entre as menores da série histórica, parte significativa das vagas está concentrada em atividades informais e em plataformas digitais.

“O Brasil encontra-se com taxas de desemprego muito baixas, mas é um emprego que precisa ser melhor qualificado”, observa.

O pesquisador ressalta ainda que o elevado desembolso com seguro-desemprego, mesmo diante da baixa taxa oficial de desocupação, revela um aparente paradoxo e indica elevada rotatividade no mercado de trabalho.

Foto: Canal Rural Mato Grosso

Juros elevados afetam investimentos

José Eustáquio pontua que o atual patamar da Selic favorece aplicações financeiras, mas reduz o interesse por investimentos produtivos. “Juros mais elevados significam menos investimento produtivo. São cenários futuros para uma menor produção, menor emprego e menor renda”.

Ele também chama a atenção para o impacto das taxas elevadas sobre as contas públicas. Conforme o pesquisador, manter juros nesse nível amplia o custo da dívida do governo e dificulta o equilíbrio fiscal. “O governo precisa reduzir gastos”, defende.

Ainda de acordo com o especialista, a estratégia adotada até agora priorizou o aumento da arrecadação por meio da tributação, mas as despesas cresceram em ritmo ainda maior.

“O governo priorizou um ajuste fiscal aumentando receita, ou seja, tributando mais o setor privado e aumentando gastos. Só que o gasto aumentou de forma maior ainda, ou seja, o déficit cresceu bastante”.

Para José Eustáquio, a redução das despesas públicas seria o caminho para diminuir a pressão sobre os juros e criar um ambiente mais favorável aos investimentos privados.

Geopolítica amplia pressão sobre custos

Além dos fatores internos, o pesquisador avalia que o cenário geopolítico internacional continua trazendo reflexos para a economia brasileira.

O conflito no Oriente Médio, especialmente na região do Estreito de Ormuz, aumenta custos de frete marítimo e seguros, enquanto a guerra entre Rússia e Ucrânia mantém pressão sobre o mercado global de fertilizantes. Como aproximadamente um terço da economia brasileira está ligado ao agronegócio, esses custos acabam sendo incorporados à atividade econômica e influenciam diferentes cadeias produtivas.

Apesar disso, José Eustáquio observa que a inflação brasileira apresenta comportamento diferente do registrado em outros países. “Nos Estados Unidos, o índice inflacionário está sendo pressionado principalmente pela energia, petróleo. Aqui no Brasil, o IPCA está aumentando bastante no item alimentos”.

Segundo ele, programas de redistribuição de renda ampliam o consumo de alimentos e acabam contribuindo para a pressão sobre esse grupo de produtos, enquanto os preços da energia permanecem relativamente contidos.

Plano Safra perde força em valores reais

Ao analisar os números do Plano Safra, José Eustáquio pondera que parte dos recursos anunciados inclui instrumentos como as Cédulas de Produto Rural (CPRs), o que, em sua avaliação, amplia artificialmente os valores divulgados.

Após corrigir monetariamente os quatro últimos planos, ele concluiu que o Plano Safra 2025/26 representou o maior volume de recursos em termos reais, enquanto o programa atual apresentou redução para o segmento empresarial.

“O Plano Empresarial foi anunciado em R$ 525 bilhões. O valor do plano passado corrigido estaria hoje em R$ 539,3 bilhões, ou seja, nós tivemos uma redução”.

Mesmo com linhas de financiamento entre 8% e 9%, o pesquisador considera que o crédito continua caro diante da atual taxa básica de juros.

“Com taxas de juros de 14,25%, ou até de 8% e 9% dentro do Plano Safra, também são taxas muito elevadas. Isso diminui o ímpeto para captar crédito”, salienta ao programa do Canal Rural Mato Grosso.

Na avaliação dele, o cenário econômico continuará exigindo atenção nos próximos anos. Juros elevados, incertezas fiscais e tensões internacionais permanecem entre os principais fatores que influenciam o crescimento, os investimentos e o ambiente de negócios no Brasil.

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