Atração deste sábado (11) na 10ª Feira Literária de Bonito (Flib), o jornalista, escritor e apresentador Pedro Bial concedeu entrevista antes de subir ao Palco Literário e transitou entre a memória da amiga Isabel Salgado, retratada em seu livro mais recente, a relação conflituosa entre o escritor e o jornalista que convivem dentro dele e uma reflexão sobre o tempo que rendeu a frase mais marcante da conversa. “Eu acho que o tempo me deu muito mais do que me tirou.”
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Autor de “Isabel do Vôlei da Vida” (Editora Gente), biografia da ex-jogadora Isabel Salgado, morta em 2022, Bial foi questionado se a atleta, símbolo do pioneirismo feminino no esporte, estaria hoje na luta pela representatividade das mulheres. A resposta veio sem rodeios. “Acho que ela, durante toda a vida, não fez outra coisa. A Isabel é uma afirmação da força da mulher.”
O escritor lembrou que Isabel era fruto de uma família matriarcal, formada só por filhas, com uma mãe potente, e neta de uma poeta pioneira dos anos 1920, amiga de Manuel Bandeira, que ajudou a formar sua visão de mundo. Para ele, a imagem da jogadora atuando grávida rima com outro símbolo de emancipação feminina. “A barriga da Isabel grávida jogando rima com a barriga de fora da Leila Diniz na praia. São dois símbolos de libertação, de ruptura.
No entanto, afirmam também uma continuidade”, refletiu. “A mulher, com a presença que ela tem hoje na nossa economia, na nossa sociedade, na nossa cultura, por um lado é uma novidade. Por outro, é a confirmação de uma tradição.”
Assista ao trecho em que Bial fala sobre a ex-jogadora.
O escritor briga com o jornalista
Provocado sobre as críticas que o jornalismo enfrenta, Bial reivindicou o direito ao autoexame. “Ninguém é tão crítico do jornalismo quanto o jornalista. Vivemos uma crise de modelo de negócios, uma crise de representatividade. Muita gente se arroga o direito de fazer críticas ao jornalismo, mas ninguém tem a autoridade que o jornalista tem para fazer esse autoexame.”
Foi aí que ele descreveu, com humor, o diálogo interno entre os dois ofícios que carrega. “O escritor briga com o jornalista. E o jornalista humilha o ego do escritor”, contou. Segundo Bial, enquanto o escritor se acha dono de uma percepção mais profunda da realidade, o jornalista rebate mandando baixar a bola da vaidade e perguntando qual é a notícia. E o escritor devolve: “Vaidade é você, jornalista. Nunca vi bicho mais vaidoso.
O jornalista se acha poderoso porque tem acesso ao poder, quando na verdade muitas vezes é apenas um instrumento dos poderosos”. A conclusão veio em tom de piada. “Fica esse diálogo: eu sou esquizofrênico, mas eu também sou.”
Assista a seguir.
A conta do tempo para Pedro Bial
O momento mais reflexivo da entrevista veio quando o jornalista foi perguntado sobre o que o tempo lhe tirou. Bial admitiu que a pergunta acompanha a humanidade “desde que o tempo é tempo” e disse cultivar, de forma consciente, o hábito de olhar para o copo meio cheio. “Eu não sei se é uma espécie de esperança incorrigível ou uma maneira de não me deixar vencer pelo desânimo. O tempo me deu muito mais do que me tirou.”
Na contabilidade das perdas, ele citou com bom humor as saudades do joelho, dos amigos que se foram e de uma certa vitalidade da juventude, substituída, segundo ele, por outro tipo de vitalidade. Mas ponderou que o que ganhou vivendo mais está mais presente em seus pensamentos e atos do que aquilo que perdeu. Para Bial, é preciso equilíbrio diante do relógio. “Se a gente ficar pensando no relógio batendo, talvez dê uma angústia muito grande.
Ao mesmo tempo, esquecer, negar isso, é psicótico. Em resumo, estou consciente de que tenho pouco tempo.”
De volta a Mato Grosso do Sul
A passagem por Bonito marca o retorno de Pedro Bial ao estado poucos meses depois de ele estreitar os laços com o público sul-mato-grossense.
No fim de 2025, o jornalista apresentou o documentário “Zahran, Um Sonho no Ar”, produção que celebrou os 60 anos da RMC (Rede Matogrossense de Comunicação) e recontou a trajetória da família Zahran, pioneira da televisão em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
Exibido em dezembro pela TV Morena e pela TV Centro América, o documentário uniu linguagem jornalística e dramaturgia, e trouxe Pedro Bial ao estado em outubro para as gravações, a convite da RMC.
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Serviço
A 10ª Flib termina neste domingo (12), na Praça da Liberdade, em Bonito, com entrada gratuita. Nesta edição comemorativa, a feira homenageia a escritora Lygia Fagundes Telles e o escritor e editor douradense Luciano Serafim, falecido em 2025.