Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, o Pix se tornou alvo porque fortaleceu a autonomia financeira do país e reduziu a dependência de sistemas de pagamento controlados por empresas e instituições americanas. Na avaliação deles, o debate tem um forte componente geopolítico.
Para o professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva, o incômodo dos Estados Unidos está relacionado à perda de influência sobre o sistema financeiro brasileiro.
“Esse tipo de medida deixa evidente que os EUA não querem perder esse poder que eles têm hoje sobre o sistema financeiro em boa parte do mundo. Não à toa, a China não usa Visa e Mastercard. Ela tem sistemas próprios, e isso tem a ver com uma maior soberania e autonomia desse país”, afirmou.
Além de facilitar pagamentos, o Pix ampliou o acesso da população ao sistema bancário. Segundo o economista, isso também impulsionou outros serviços financeiros, inclusive aqueles oferecidos por empresas americanas.
Dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) mostram que, mesmo com a expansão do Pix, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões em 2025, crescimento de 10,1% em relação ao ano anterior.
Pix virou ferramenta de soberania
Para o professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, o Pix deixou de ser apenas um meio de pagamento e passou a representar um instrumento de soberania econômica para o Brasil.
Segundo ele, o sistema permite maior autonomia nas transações financeiras e reduz a dependência de plataformas internacionais dominadas pelos Estados Unidos.
Outro fator citado pelo especialista é que o Banco Central já mantém acordos de cooperação técnica com 47 países interessados em desenvolver sistemas semelhantes ao Pix, ampliando a influência do modelo brasileiro no exterior.
Sistema também dificulta sanções
Os especialistas afirmam que sistemas nacionais de pagamento, como o Pix, também limitam o alcance de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos.
Isso ocorre porque plataformas sediadas em território americano costumam seguir automaticamente as determinações do governo dos EUA, enquanto sistemas próprios oferecem maior autonomia aos países.
Maicon Cláudio da Silva cita como exemplos o bloqueio econômico contra Cuba e as recentes sanções impostas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, para demonstrar como o controle sobre meios de pagamento pode ser usado como instrumento de pressão internacional.
Europa segue caminho semelhante
O movimento em busca de sistemas próprios de pagamento não acontece apenas no Brasil.
Dias antes do anúncio das tarifas contra produtos brasileiros, a revista britânica The Economist publicou que iniciativas como o Pix e projetos semelhantes na Europa podem reduzir a supremacia das empresas americanas no setor de pagamentos eletrônicos.
A União Europeia já trabalha no desenvolvimento do Euro Digital, um sistema público de pagamentos instantâneos com lançamento piloto previsto para 2027.
A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, afirmou recentemente que o objetivo é justamente reduzir a dependência das redes americanas e fortalecer a soberania financeira do bloco.
Para os especialistas, o fato de o Pix ter sido citado pelo governo dos Estados Unidos mostra que a disputa em torno dos sistemas de pagamento deixou de ser apenas tecnológica e passou a integrar a estratégia geopolítica e econômica entre os países.
Com informações da Agência Brasil.
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