Um raio-X assustador e detalhado produzido pelo Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) expôs as vísceras de uma crise estrutural que compromete diretamente a dignidade humana e a segurança no estado. Uma fiscalização minuciosa apontou graves irregularidades estruturais, sanitárias e administrativas em sete unidades do Instituto Médico Legal (IML) distribuídas em pontos estratégicos de Mato Grosso. As vistorias técnicas, realizadas entre os meses de março e maio deste ano, constataram um cenário de total precarização que inclui desde a exposição direta a risco biológico até a falta de equipamentos básicos de necropsia e a completa ausência de regularização institucional junto ao conselho profissional.
O documento oficial, obtido em primeira mão pela reportagem do portal Primeira Página, revela que o problema é sistêmico: nenhuma das sete unidades vistoriadas possui inscrição ativa como estabelecimento médico no CRM-MT, e nenhuma conta com um diretor técnico médico formalmente registrado para responder pelas atividades. Para a diretoria do conselho, as inconformidades não são falhas isoladas, mas sim o reflexo de uma precarização institucional crônica e sistêmica que se arrasta ao longo dos anos na administração pericial.
Ossos humanos expostos e insumos vencidos há uma década provocam interdição ética em unidade
Os achados da equipe de fiscalização desenham um panorama alarmante nas sedes do interior. A situação mais ultrajante e caótica foi identificada no IML de Barra do Garças, cujo nível de degradação levou o CRM-MT a determinar a interdição ética imediata da unidade. No local, os fiscais flagraram produtos químicos e reagentes vencidos há mais de dez anos, além de uma cena de total desrespeito: uma caixa contendo ossos humanos estava jogada, totalmente aberta, em uma área destinada ao armazenamento de materiais de limpeza. Em Água Boa, as falhas envolvem severos problemas de biossegurança, armazenamento inadequado de materiais coletados em necropsias e o descumprimento frontal de normas técnicas nos atendimentos humanizados a vítimas de violência sexual.
A escassez crônica de ferramentas de trabalho também foi registrada em Cáceres, Rondonópolis e Sinop. Nessas unidades, os médicos legistas trabalham sem aparelhos de raio-X, sem balanças apropriadas para a pesagem de órgãos e cadáveres e sem sistemas eficientes de drenagem de efluentes — o que potencializa a contaminação ambiental. Já em Confresa, a fiscalização flagrou o exercício ilegal da medicina, com um profissional atuando sem a inscrição secundária ou a autorização temporária exigida por lei em Mato Grosso, além do uso de materiais totalmente vencidos para a coleta de exames periciais.
Os principais problemas detectados pelo CRM-MT nas unidades do IML reúnem:
- Sem Registro Técnico: Nenhuma das sete unidades possui inscrição médica ativa ou diretor técnico responsável perante o CRM;
- Interdição em Barra do Garças: Produtos químicos vencidos há 10 anos e ossos humanos guardados junto a materiais de limpeza;
- Apagão de Equipamentos: Sedes de Cáceres, Rondonópolis e Sinop operam sem raio-X e sem balanças para pesar órgãos;
- Insegurança na Capital: IML de Cuiabá registra episódios recorrentes de violência interna e não possui alvará contra incêndios.
IML de Cuiabá registra episódios de violência e Politec afirma que adequações estão em andamento
Nem mesmo a principal unidade do estado, localizada em Cuiabá, escapou do diagnóstico de abandono. O relatório aponta que a sede da capital sofre com episódios recorrentes de violência em suas dependências internas e opera de forma irregular, sem possuir o Alvará de Prevenção e Combate a Incêndios emitido pelo Corpo de Bombeiros. De acordo com o CRM-MT, a soma dessas falhas graves compromete severamente a segurança física de servidores, médicos e usuários, além de violar diretamente a privacidade e a dignidade das vítimas e familiares durante os atendimentos.
Diante do caos instalado, o conselho profissional emitiu uma série de notificações com prazos rígidos para o Executivo Estadual. Deu 15 dias para a regularização da direção técnica de todas as unidades; 45 dias para a normalização das escalas de plantão, entrega de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e reposição de insumos básicos; e fixou um prazo de 90 dias para grandes reestruturações físicas, como a instalação de sistemas de exaustão, drenagem, acessibilidade e obtenção de licenças sanitárias. Procurada, a Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) manifestou-se em nota informando que as adequações exigidas já estão em fase de implantação e que melhorias progressivas em infraestrutura vêm sendo realizadas em todo o estado.
| Unidade do IML Monitorada | Principais Irregularidades Estruturais e Sanitárias (2026) |
|---|---|
| Barra do Garças | Interdição Ética: Reagentes vencidos há 10 anos e ossos expostos |
| Cuiabá (Capital) | Casos de violência interna e falta de alvará de incêndio dos Bombeiros |
| Confresa | Médico sem inscrição estadual ativa e insumos de exames vencidos |
| Água Boa | Falhas graves de biossegurança e desrespeito a normas de violência sexual |
| Cáceres, Rondonópolis e Sinop | Ausência total de aparelhos de raio-X e balanças de pesagem de órgãos |
O relatório demolidor do CRM-MT sobre o estado de penúria dos IMLs em Mato Grosso desnuda uma realidade ultrajante e evidencia que a negligência governamental com a polícia científica ultrapassou todas as barreiras éticas toleráveis, transformando locais de busca pela justiça em ambientes insalubres e perigosos, embora representantes da segurança pública argumentem com frequência que o Estado herdou passivos estruturais históricos e que a modernização da Politec exige investimentos bilionários e concursos complexos que demandam tempo burocrático, alertando com seriedade que paralisar os atendimentos por meio de interdições radicais penaliza diretamente a população carente do interior que depende de laudos para liberar corpos e punir criminosos, exigindo das autoridades um plano emergencial de contingência em pleno ano de 2026. Você considera que o CRM-MT agiu corretamente ao decretar a interdição ética de unidades com falhas graves de biossegurança para proteger a integridade dos profissionais e a dignidade dos mortos, ou acredita que o fechamento desses postos agrava o sofrimento das famílias e atrasa o andamento de investigações criminais urgentes no interior? Participe do debate e deixe seu comentário abaixo.
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