Seu setor já está no meio de uma guerra, ainda que a maioria dos empresários não tenha percebido. Recentemente, a Sequoia Capital publicou uma tese que passou a circular entre alguns dos principais fundos de private equity do mundo. A conclusão é direta e, ao mesmo tempo, disruptiva: a próxima empresa de US$ 1 trilhão não venderá software. Ela entregará o resultado final diretamente ao cliente, eliminando intermediários.
Não se trata de especulação. Trata-se de capital se movendo em escala global.
A inteligência artificial não é mais uma promessa futura. Ela já está operando, reconfigurando cadeias de valor e alterando, de forma estrutural, a dinâmica de setores inteiros. Ao mapear os principais segmentos de serviços, a análise da Sequoia chegou a um dado incômodo: entre 80% e 90% do trabalho realizado por profissionais especializados consiste, essencialmente, em “trabalho de inteligência”, processos complexos, porém replicáveis. Exatamente o tipo de atividade que sistemas de IA executam com maior velocidade, menor custo e crescente precisão.
Nesse contexto, empresas nascidas sob a lógica AI-native não estão sendo desenhadas para vender ferramentas. Estão sendo estruturadas para capturar o orçamento completo do serviço. Competem, portanto, com uma base de custos que operações tradicionais dificilmente conseguirão replicar no médio prazo.
O avanço da consolidação e seus efeitos no Brasil
O movimento global de consolidação já tem endereço definido. E o Brasil está inserido nele.
O padrão se repete historicamente em setores que amadurecem: mercados fragmentados atraem capital, plataformas dominantes emergem e, inevitavelmente, empresas independentes que postergaram decisões estratégicas acabam sendo vendidas por necessidade, não por opção.
Hoje, grupos capitalizados estão adquirindo empresas com critérios cada vez mais sofisticados e velocidade crescente. O comprador atual ainda remunera recorrência, carteira de clientes e equipe qualificada. No entanto, o comprador de amanhã tende a fazer uma pergunta mais incisiva: por que adquirir uma operação que a tecnologia pode substituir, total ou parcialmente?
Essa pergunta já está presente nas mesas de M&A globais. Em breve, estará sendo aplicada de forma direta ao seu setor.
Três destinos possíveis e uma decisão inadiável
Diante desse cenário, todo negócio caminha, inevitavelmente, para um de três destinos estratégicos.
O primeiro é tornar-se uma plataforma: investir em tecnologia, governança e escala para construir um ativo investível, capaz de capturar múltiplos premium justamente por antecipar movimentos de mercado.
O segundo é vender bem: transformar anos ou décadas de construção empresarial em liquidez real, por meio de um processo estruturado, com o comprador adequado e condições negociadas de forma estratégica.
O terceiro, e mais recorrente, é ser absorvido ou simplesmente desaparecer: perder relevância diante de operações mais eficientes, assistir à compressão de margens e reconhecer, tardiamente, que a janela de oportunidade já se fechou.
Hoje, a maioria dos empresários já está posicionada nesse terceiro caminho, sem necessariamente ter feito essa escolha de forma consciente.
Timing: o ativo invisível mais valioso
Existe uma regra silenciosa no mercado de fusões e aquisições: empresas são vendidas quando o mercado está disposto a pagar prêmio, não quando o proprietário decide vender.
Ciclos de disrupção tecnológica e consolidação acelerada não costumam emitir avisos prévios sobre o fechamento de janelas estratégicas. Eles simplesmente acontecem.
Quem vende por estratégia escolhe o momento, o comprador e as condições.
Quem vende por necessidade aceita o que resta.
*Erich Hüttner é CEO da VSH Partners


