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Alta do petróleo vira aposta arriscada do governo para conter gasolina

Alta do petróleo vira aposta arriscada do governo para conter gasolina

A disparada do petróleo provocada pela escalada da guerra no Oriente Médio levou o governo brasileiro a tentar uma solução incomum: usar o aumento da arrecadação gerado pelo próprio choque externo para financiar cortes de impostos sobre combustíveis. A proposta, que prevê reduzir tributos como PIS, Cofins e Cide, condiciona o alívio na bomba à entrada de receitas adicionais vindas da valorização da commodity.

A lógica é de neutralidade fiscal. Segundo integrantes da equipe econômica, a ideia é que qualquer redução tributária seja compensada pela arrecadação extra com o petróleo, evitando impacto direto nas contas públicas.

Na prática, porém, economistas avaliam que o efeito tende a ser apenas parcial. Isso porque o aumento do petróleo é um choque global, com transmissão direta para os preços internos. Mesmo com medidas compensatórias, o repasse não desaparece.

“Os subsídios ajudam a amortecer a alta, mas não eliminam a pressão dos preços internacionais”, afirmou a economista Tatiana Migiyama, professora da Fipecafi.

A avaliação é compartilhada por outros especialistas. Para Alberto Ajzental, professor da FGV, o ganho de arrecadação gerado pela alta do petróleo pode ser consumido integralmente pelo próprio esforço de conter os preços. “O ganho arrecadatório tende a ser consumido pela tentativa de conter a escalada dos combustíveis”, disse.

Esse ponto expõe a principal fragilidade da estratégia: a dependência de uma variável volátil. Se o petróleo recuar, a base de financiamento desaparece, enquanto a pressão sobre os preços pode permanecer, criando um descompasso fiscal.

Além disso, o impacto macroeconômico vai além da bomba. Combustíveis são insumos transversais e afetam cadeias logísticas, indústria e alimentos. Isso amplia o risco inflacionário e dificulta o trabalho do Banco Central.

“O governo faz esse esforço para tentar evitar uma alta da Selic, mas o cenário inflacionário piora”, afirmou Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Na prática, o movimento revela uma tentativa de gestão de curto prazo de um choque estrutural. A alta do petróleo aumenta a arrecadação, mas também eleva custos em toda a economia. O saldo líquido tende a ser neutro do ponto de vista fiscal, mas negativo do ponto de vista inflacionário e de atividade.

Há ainda um componente estrutural mais profundo. O Brasil continua exposto ao mercado internacional de combustíveis, especialmente no diesel, do qual importa cerca de 30% do consumo. Essa dependência mantém o país vulnerável a crises geopolíticas.

“É essencial reduzir essa dependência para diminuir a vulnerabilidade a choques externos”, acrescentou Vale.

Nesse contexto, a proposta do governo funciona mais como um mecanismo de amortecimento do que como solução definitiva. Ela pode suavizar o impacto imediato, mas não altera o vetor principal do problema: a centralidade do petróleo na dinâmica econômica global.

O episódio reforça um diagnóstico recorrente no debate energético. Enquanto a transição para fontes mais previsíveis e menos voláteis não avança com escala, a gasolina seguirá operando não apenas como preço ao consumidor, mas como variável crítica de política econômica.

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