O setor de shopping centers entrou em estado de alerta diante da iminente aprovação da proposta que prevê o fim da escala 6×1 no Brasil. Um estudo elaborado pela Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) aponta que a mudança na jornada de trabalho pode provocar um choque relevante de custos, com impacto direto sobre emprego, faturamento e estrutura operacional das lojas, especialmente em um segmento intensivo em mão de obra e dependente de horários estendidos.
As projeções indicam um cenário de deterioração acelerada já no primeiro ano de implementação. No modelo mais restritivo, que reduz a jornada de 44 para 36 horas semanais, o faturamento do setor pode encolher até R$ 32 bilhões, o equivalente a uma retração de 16%, configurando a maior queda desde o período mais crítico da pandemia. Em um cenário mais moderado, com jornada de 40 horas, as perdas ainda seriam relevantes, na ordem de R$ 14,8 bilhões, ou 7,3%.
O impacto no emprego tende a ser ainda mais severo. As estimativas apontam para uma queda de até 26,8% nas vagas formais nos shoppings no cenário mais duro, superando inclusive a retração observada durante o fechamento compulsório das operações em 2020. Mesmo em uma versão mais branda da proposta, a redução pode alcançar 12,2%.
A pressão sobre o mercado de trabalho não se limita ao setor. No conjunto da economia, o estudo projeta a eliminação de até 9,4 milhões de postos no primeiro ano no cenário mais extremo, com reflexos persistentes ao longo do tempo. A consequência direta tende a ser o aumento da informalidade, que pode crescer em até 1,2 milhão de trabalhadores já no primeiro ano.
Do ponto de vista estrutural, a mudança na escala de trabalho atinge em cheio a lógica operacional dos shoppings, baseada em funcionamento contínuo e alta rotatividade de equipes. Com a redução da jornada sem compensação de produtividade, as empresas tendem a reagir por meio de ajustes defensivos, como redução de quadro, substituição por trabalhadores menos experientes ou migração parcial para vínculos informais.
A literatura econômica, segundo o levantamento, não oferece garantias de que a redução da jornada resulte em geração de empregos formais. Pelo contrário, há evidências consistentes de efeitos neutros ou negativos sobre o mercado de trabalho, especialmente quando a mudança ocorre de forma abrupta e sem ganhos de produtividade associados. Entre os efeitos colaterais mais recorrentes estão a compressão de salários, a diminuição da escala produtiva e o aumento da chamada dupla ocupação, quando trabalhadores precisam acumular mais de um emprego para recompor renda.
No caso específico dos shoppings, o impacto tende a ser desigual. Lojas satélites, que operam com margens mais apertadas, aparecem como as mais vulneráveis, com maior probabilidade de repasse de custos ao consumidor e retração mais intensa no faturamento. Já as grandes âncoras, com maior capacidade de absorção de custos, devem enfrentar pressão, mas com menor risco de disrupção imediata.
Para o presidente da Abrasce, Glauco Humai, o debate precisa considerar os efeitos sistêmicos da medida sobre um setor intensivo em serviços e emprego. “Os shopping centers operam com uma lógica contínua, com horários amplos e grande dependência de equipes presenciais. Uma mudança abrupta na jornada, sem ganho de produtividade, tende a elevar custos de forma relevante e comprometer a sustentabilidade de muitas operações”, afirmou.
Segundo o executivo, o risco não está apenas na redução de margens, mas na reconfiguração do mercado de trabalho. “Quando o custo sobe de maneira estrutural, as empresas reagem. Isso pode significar menos vagas formais, maior informalidade e até fechamento de lojas, especialmente entre os pequenos lojistas”, disse.
Na prática, o setor enxerga a proposta como um risco sistêmico para um modelo de negócios que depende de escala, previsibilidade e flexibilidade operacional. A avaliação predominante é que, sem uma transição gradual ou mecanismos de compensação, a mudança pode desencadear um ciclo negativo, com fechamento de lojas, redução de empregos e encarecimento do consumo.
Mais do que uma discussão trabalhista, o debate sobre a escala 6×1 passa a ser interpretado como uma variável macroeconômica relevante. Para um setor que já enfrenta desafios estruturais, como a digitalização do varejo e a mudança no comportamento do consumidor, a alteração na jornada pode funcionar como um fator adicional de estresse em um ambiente já pressionado.
A poucos passos de uma possível aprovação, o tema deixa de ser apenas uma pauta sindical e entra definitivamente no radar estratégico das empresas, que se preparam para um cenário de ajuste forçado em larga escala.


