A escalada da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã já começa a produzir efeitos concretos sobre as projeções econômicas globais, com o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertando para o risco de recessão mundial ao mesmo tempo em que revisa para cima as perspectivas de crescimento do Brasil, um raro caso de assimetria positiva em meio a um choque geopolítico de grandes proporções.
Segundo o relatório mais recente do Fundo, o conflito no Oriente Médio introduziu um novo vetor de instabilidade sobre a economia global, sobretudo por meio do canal energético. O fechamento do Estreito de Ormuz, responsável por cerca de um quinto do fluxo global de petróleo, elevou os preços da commodity e reacendeu temores inflacionários, pressionando políticas monetárias e reduzindo o espaço para estímulos econômicos.
Em cenários mais adversos traçados pela instituição, o impacto pode ser ainda mais severo. O FMI considera a possibilidade de uma desaceleração significativa do crescimento global e não descarta uma recessão caso o barril de petróleo ultrapasse níveis críticos. Em um dos cenários analisados, o crescimento global cairia para cerca de 2%, acompanhado de inflação acima de 6%, caracterizando um ambiente típico de estagflação.
A diretora-gerente do Fundo, Kristalina Georgieva, já havia sinalizado que conflitos armados tendem a gerar impactos “mais profundos e duradouros” do que crises financeiras tradicionais, ao deteriorar contas públicas, pressionar preços e reduzir o investimento global.
Apesar desse quadro global adverso, o Brasil aparece como uma exceção relativa. O FMI elevou a projeção de crescimento do país para 2026 e destacou que o conflito pode gerar um “pequeno efeito positivo” sobre a atividade econômica brasileira, com impacto estimado em cerca de 0,2 ponto percentual adicional no PIB.
A explicação está na estrutura produtiva do país. Como exportador líquido de commodities, especialmente petróleo, o Brasil tende a se beneficiar de ciclos de alta nos preços internacionais de energia. A valorização dessas commodities melhora os termos de troca, fortalece o fluxo cambial e amplia a arrecadação em setores estratégicos, como o de óleo e gás.
Esse movimento, no entanto, não ocorre sem contrapartidas. O encarecimento global do petróleo também pressiona a inflação doméstica, sobretudo via combustíveis e custos logísticos, criando um dilema clássico para a política monetária. Bancos centrais ao redor do mundo, incluindo o Federal Reserve, já sinalizam cautela diante da combinação de crescimento mais fraco e preços mais elevados.
Relatórios recentes de instituições financeiras internacionais reforçam essa leitura. Analistas do JPMorgan Chase avaliam que choques prolongados de petróleo tendem a “reancorar expectativas inflacionárias em patamares mais elevados”, enquanto o Goldman Sachs destaca que economias exportadoras de energia, como Brasil e México, “podem apresentar desempenho relativo superior em cenários de alta prolongada das commodities energéticas”.
No caso brasileiro, o efeito líquido dependerá da duração do conflito. Em um cenário de guerra curta, o país tende a capturar ganhos via exportações e fluxo de capitais. Já em um cenário prolongado, o risco de desaceleração global pode reduzir a demanda por commodities e limitar esse benefício inicial.
A leitura do FMI aponta para um paradoxo típico de choques geopolíticos: enquanto o mundo caminha para um ambiente mais próximo da recessão, algumas economias específicas conseguem capturar ganhos pontuais, ainda que temporários, em meio à turbulência. O Brasil, ao menos por ora, está entre elas.


