A Grana Capital nasceu para resolver uma das dores mais complexas do investidor pessoa física no Brasil e agora tenta dar um passo além. Depois de consolidar uma base relevante com uma plataforma voltada à apuração de imposto de renda em renda variável, a empresa prepara o lançamento de um novo produto baseado em inteligência artificial para automatizar a gestão financeira dos usuários.
Segundo André Kelmanson, o ponto de partida da companhia foi atacar um gargalo estrutural do mercado de capitais brasileiro. “A gente desenvolveu um aplicativo que agrega investimentos direto da B3 e consolida a carteira do investidor. Além de acompanhar performance, conseguimos resolver uma das maiores dores, que é a apuração do imposto sobre operações”, afirmou.
A complexidade tributária envolvendo ações, fundos imobiliários e outros ativos exige cálculos frequentes de preço médio, compensação de prejuízos e acompanhamento de eventos corporativos. Na prática, muitos investidores acabam errando ou simplesmente deixando de cumprir obrigações mensais. A proposta da Grana foi automatizar esse processo e simplificar o pagamento do imposto.
“A gente avisa quando há imposto a pagar e o usuário consegue quitar com Pix ou cartão, sem precisar lidar com o DARF”, explicou o executivo.
A solução também integra a declaração anual. O sistema gera um arquivo compatível com o programa da Receita Federal, preenchendo automaticamente informações de renda variável, o que reduz significativamente o tempo gasto pelo contribuinte.
Fundada com foco B2C, a fintech passou a atrair também contadores, especialmente durante o período de declaração. “Tem contador que leva semanas para fechar a renda variável de um cliente. Com a nossa solução, ele resolve isso em minutos”, disse Alexandre Fischer, diretor de produto da empresa.
Esse movimento levou à criação do Grana Pro, versão voltada ao mercado profissional, com modelo de cobrança por CPF processado. A estratégia amplia o alcance da empresa dentro do ecossistema contábil, onde a dor operacional é ainda mais evidente.
Hoje, a plataforma soma cerca de 400 mil usuários conectados, número que representa aproximadamente 10% dos investidores pessoa física ativos na bolsa brasileira, segundo a própria empresa.
Apesar da escala relevante, o próximo ciclo de crescimento da Grana não está mais restrito ao investidor de renda variável. A aposta agora é capturar um mercado muito mais amplo: o da organização financeira pessoal.
O novo produto, chamado Grana Smart, utiliza Open Finance para integrar dados bancários e de cartões em um único ambiente e combina essa base com modelos de inteligência artificial. A proposta é transformar a relação do usuário com o dinheiro em uma experiência conversacional e automatizada.
“O usuário consegue conversar com o próprio dinheiro, entender para onde ele está indo e programar o sistema para agir automaticamente”, afirmou Fischer.
Na prática, o assistente é capaz de identificar gastos, sugerir otimizações e até executar ações mediante autorização. Se houver saldo parado em uma conta sem rendimento, por exemplo, o sistema pode recomendar transferências para aplicações mais rentáveis. Também é possível configurar alertas de gastos, controle de orçamento e automações financeiras recorrentes.
A iniciativa busca resolver um problema estrutural no Brasil: a baixa organização financeira, que atinge desde consumidores endividados até profissionais de alta renda com dificuldade de poupança. “Existe uma falta histórica de educação financeira, e isso se reflete na forma como as pessoas lidam com o dinheiro”, disse o CEO.
A arquitetura tecnológica do produto foi desenvolvida internamente, com uso de diferentes modelos de linguagem conforme a função de cada agente. “A gente construiu nossos próprios agentes. Cada etapa usa o modelo mais adequado, seja para geração de código ou análise de dados”, explicou Fischer.
Diferentemente dos aplicativos tradicionais de gestão financeira, que dependem de input manual e oferecem apenas visualizações passivas, o Grana Smart opera de forma ativa. O sistema monitora movimentações, antecipa problemas e sugere decisões, criando uma camada de inteligência sobre os dados financeiros do usuário.
Outro diferencial é a integração com o WhatsApp, canal que já concentra cerca de 75% das interações da ferramenta, segundo a empresa.
Com preço de lançamento de R$ 29 por mês, o produto entra em um mercado significativamente maior que o da apuração fiscal. A própria companhia reconhece o potencial de escala. “Qualquer pessoa bancarizada extrai valor desse produto”, afirmou Kelmanson.
A estratégia indica uma mudança de posicionamento. Se no primeiro momento a Grana Capital resolveu uma dor específica e crítica do investidor, agora busca se tornar uma plataforma mais ampla de gestão financeira, combinando dados, automação e inteligência artificial em um único ambiente.
O desafio, a partir daqui, será converter essa base potencial em usuários recorrentes e diferenciar a solução em um mercado que já conta com diversas tentativas de organizar a vida financeira do brasileiro, mas que ainda carece de soluções realmente eficazes e automatizadas.


