Em mais um episódio que mistura política, espetáculo e mercado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a tensionar os limites institucionais ao divulgar uma ilustração em que se compara a Jesus Cristo. O gesto, carregado de simbolismo e provocação, reforça um padrão recorrente de comunicação personalista que, embora mobilize sua base política, amplia críticas sobre o uso da imagem presidencial como instrumento de culto à personalidade.
O paradoxo é que, enquanto o ruído político se intensifica, os mercados financeiros, especialmente em economias emergentes como o Brasil, reagem em direção oposta. A combinação de sinais de distensão geopolítica e decisões erráticas, porém pragmáticas, da Casa Branca tem contribuído para reduzir a aversão global ao risco, favorecendo ativos brasileiros.
Foi o que se viu nos últimos dias, quando declarações de Trump indicando recuo em tensões com o Irã desencadearam um movimento de alívio nos mercados. Ontem, o dólar recuou para R$ 4,99, enquanto o Ibovespa avançou com força, fechando a 198 mil pontos, impulsionado por ações ligadas à economia doméstica. O movimento reflete um padrão conhecido: em momentos de menor estresse internacional, investidores desmontam posições defensivas e redirecionam capital para países emergentes, elevando moedas como o real e valorizando bolsas locais.
“O que estamos vendo é um clássico movimento de busca por risco. Quando há qualquer sinal de alívio geopolítico, o capital global rapidamente migra para emergentes com juros elevados”, afirmou Alberto Ramos, chefe de pesquisa para América Latina do Goldman Sachs.
A ironia é evidente. O mesmo líder que tensiona instituições democráticas e flerta com narrativas messiânicas tem sido, ao menos no curto prazo, um vetor indireto de valorização de ativos brasileiros. Isso ocorre porque suas decisões, muitas vezes abruptas, acabam produzindo ciclos de “risk-on” e “risk-off” que reposicionam fluxos globais de capital.
“Mercados emergentes como o Brasil tendem a se beneficiar de episódios de redução de incerteza global, mas esse movimento pode se reverter rapidamente diante de novos choques”, avaliou Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, ao analisar o comportamento dos fluxos internacionais.
Esse efeito, no entanto, está longe de ser estrutural. A própria trajetória recente da política econômica de Trump mostra elevada volatilidade. Episódios como a escalada tarifária de 2025, que derrubou bolsas globais e aumentou a aversão ao risco, evidenciam que o impacto de suas decisões pode mudar rapidamente de sinal. Em outras palavras, o mesmo agente que hoje contribui para a valorização do real pode, amanhã, provocar uma fuga de capital.
No caso brasileiro, o momento atual combina fatores externos e internos. A melhora marginal no cenário internacional se soma a um fluxo consistente de investidores estrangeiros e à percepção de que o diferencial de juros segue atraente. Esse conjunto tem sustentado o real em patamares mais valorizados e levado o Ibovespa a se aproximar da marca simbólica dos 200 mil pontos.
“O diferencial de juros do Brasil continua sendo um dos principais atrativos para o investidor estrangeiro, especialmente em um ambiente global ainda marcado por incertezas”, disse Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC, em evento com economistas na última semana.
Ainda assim, atribuir esse movimento a qualquer tipo de “milagre”, como sugere a retórica implícita no próprio comportamento de Trump, é uma simplificação perigosa. Mercados respondem a incentivos, liquidez e percepção de risco, não a narrativas messiânicas. Quando um presidente se coloca como figura divina, o que está em jogo não é apenas retórica política, mas a própria previsibilidade institucional, um dos pilares fundamentais para decisões de investimento de longo prazo.
A leitura mais precisa, portanto, é menos religiosa e mais pragmática. O que se observa é um ciclo de curto prazo em que ruídos políticos coexistem com sinais pontuais de distensão geopolítica, gerando um ambiente favorável para ativos de risco. Mas esse equilíbrio é instável por definição.
Se há algum “milagre” no mercado, ele está menos na figura de um líder e mais na capacidade dos investidores de navegar, com rapidez, entre incerteza e oportunidade. E, nesse jogo, Trump continua sendo menos um salvador e mais um catalisador imprevisível de movimentos globais de capital.


